"O ladrão corre pela floresta, passos rápidos, fugindo do urso. A mão agarra fortemente o cristal jade enquanto o chão treme conforme o perseguidor se aproxima.
- Eu sigo ziguezagueando pelas árvores para despista-lo! Você fez o urso com o dobro do tamanho de um urso normal, não venha me dizer que ele também é ninja!
O jogador aponta acusadoramente o mestre. Todos riem.
- Você continua correndo e ziguezagueando, na sua frente tem um tronco de um velho carvalho caído bem ao lado de outro velho carvalho em pé.
- Ok, eu pulo o carvalho caído!
-Ok, você pula o carvalho."
Nesta hora, amigos, um calafrio percorre a espinha de todo bom mestre. Que os mestres adoram carvalhos, isto é uma unanimidade. Mas será que todos já viram um carvalho? Ainda mais um velho carvalho?
Carvalhos podem ser inúmeros (600 espécies segundo a Wikipédia) - mas os mestres adoram o carvalho que cresce e fica velho e imponente, como este, da floresta de Sherwood na Grã-Bretanha:
Imagine este carvalho deitado, caído. Conseguiu? Imagine o ladrão pulando por cima deste carvalho. Pois...haja força nas pernas, amigo!
Não é culpa do mestre, ou dos jogadores...mas quantas vezes, no nosso dia-a-dia, ouvimos coisas e as imaginamos, sem nunca as ter visto de fato?
Uma shamshir, por exemplo: é uma espada oriental, de origem otomana, com empunhadura de madeira ou marfim, geralmente ornamentada. Feita de aço, sua lâmina curva parece-se com a da cimitarra, mas a angulação da lâmina pode chegar a espetaculares 35 graus. Bem...você já consegue imaginar a espada, caro leitor, mas é diferente imaginar a espada seguindo a descrição, ou ouvir o nome após vê-la:
Esta é a shamshir. Um pouco diferente do que você imaginou, aposto. Primeiro que minha descrição foi pobre em detalhes - esqueci a bainha, por exemplo - e depois, temos todos concepção diferente de como são as coisas.
Por isso, caro amigo mestre: nem tudo que você descreve, é o que seus amigos vêem. Para já, tente perceber se eles realmente entenderam o que você quis dizer. Pelo incrível que pareça, a maioria das confusões pelas quais passei em sessões de RPG foi quanto ao senso de direção: as vezes meus colegas se confundiam com esquerda/direita, não porque não sabiam diferenciar uma de outra, mas porque imaginar a cena - muitas vezes com correrias, perseguição, corredores que se bifurcam e caminhos por onde se vai e volta - pode ficar mesmo confuso. Se algum jogador quiser dar uma de esperto, tipo "não, deixa eu ir desenhando..." aproveite a deixa e pergunte: "Seu personagem tem papel? Tinta?". Você enriquece o jogo e seu colega não esquecerá de comprar esses materiais na próxima cidade. Se você planeja descrever coisas que, porventura, talvez seus amigos não tenham visto em parte alguma, considere imprimir uma figura ou mostrar-lhes mesmo na tela do computador (mas continue a sessão, não aproveite para entrar no Facebook). Para mestrar certos ambientes, inclusive, aproveite para fugir da rotina: se a sessão se passará em uma floresta na sua maior parte, combine de realizá-la em um parque - cada um leva salgadinhos, refrigerantes, sucos...já vira pique-nique. A maioria dos parques em grandes cidades - como o Ibirapuera, em São Paulo, ou o Jardim Botânico, no Rio, possui infraestrutura para acomoda-los bem: banheiros, lanchonetes, mesas onde se sentar. Você joga RPG, passa uma tarde com os amigos e ainda sai de casa!
E se seu amigo, que interpreta o ladrão, tentar pular uma árvore, a polêmica de qual o seu tamanho e se ele consegue ou não pode terminar com um simples "A árvore parece-se com aquela ali!"