- O ar já me faltava, mas as pernas continuavam a correr desesperadamente com aquele peixe de cristal ridículo na mão. Atrás, o latido de cães trazidos sabe-se lá de onde pela feitiçaria de Oderas.
E que nome para um arquimago...Oderas...com todo aquele poder, ele não sabe uma magia sequer que mude o próprio nome?
Bem, não interessa. Para ganhar uma aposta, entrei na torre de Oderas para buscar o objeto mais curioso que conseguisse pegar. Obviamente eu me arrependia e muito naquele momento, enquanto parte de mim pensava com afinco para que eu nunca esquecesse: Não julgue uma pessoa pelo seu nome!
Cheguei na escada em espiral e saltava quatro degraus de uma vez, em uma descida desesperada. Apenas um corredor me separava da porta da frente...
- Que tipo de ladrão sai pela porta da frente?
- Ora como assim? O senhor não entende...
- Pedro. Senhor não, Pedro. Troque o "senhor" por "você".
- Como quiser...Pedro. O você não entende...
- "O você" não, só você.
Naquele momento, eu respirei fundo por uns dez segundos. Estava em um lugar completamente estranho e a única pessoa disposta a me ouvir era este senhor, Pedro, que me interrompia e corrigia a cada frase, como se minha linguagem fosse inadequada ou impertinente.
- ...desculpe. Você não entende, não posso simplesmente descer uma torre por onde subi enquanto um arquimago furioso atira raios e coisas brilhantes na minha direção. E eu ainda tinha a porcaria do peixe de cristal...
- Vidro. Desculpe mas isto é vidro.
- Que seja, não me serve de nada agora. Além do mais, não sou um ladrão. Eu vivo da minha música...isso de roubar eu prefiro dizer que é "apropriar-se de maneira lícita de objetos momentaneamente esquecidos". Continuando: assim que desci o último lance de escada, corri uns cinco metros pelo corredor em direção à porta quando um estrondo à minha frente me fez parar, ali mesmo. Oderas aparecera entre mim e a porta, do nada..."Ha, um truque barato de mago..." eu disse, não sei porque. A verdade é que estava morrendo de medo. Ele disse então: "Truque barato de mago? Vou me certificar que nunca mais verás um, ou nunca mais eu o verei!" - e pronto, acordei aqui. Andei meio que maravilhado, meio que assustado com tudo, quando entrei naquilo que você chama de padaria. Tentei comprar algo com minhas peças de ouro e você, caro amigo, interveio.
- Eu ainda não acredito na sua história, mesmo vendo você com estas roupas, estas peças de ouro que para você são tão comuns mas que possuem valor incalculável neste mundo e seu violino que, confesso, é o que mais me intriga por ser feito de uma madeira da qual nunca ouvi relato. Isto de mudar de cor é realmente intrigante!
- Bem, caro amigo...gostaria de satisfazer suas curiosidades mas creio que preciso arrumar um meio de voltar para casa.
- Não conheço nenhum, nem nunca ouvi falar de nada parecido. É melhor para você manter sua história em segredo. Compraremos algumas roupas para que não chame tanta atenção e procuraremos um meio de arranjar-lhe algum dinheiro com este ouro todo que você carrega consigo.
Havia sabedoria nas palavras do senhor Pedro. Concordei prontamente com seus conselhos: Compramos umas roupas para mim - não havia alfaiate, ele me levou em um grande lugar com centenas de milhares de roupas ali, ao alcance da mão. Fantástico! Imagino quantas costureiras trabalham ali! - E ele vendeu uma de minhas peças de ouro "na internet" (preciso saber o que isto significa...) por muito dinheiro, pelo que ele me disse. Dinheiro de papel...estranho! Como pode o papel valer tanto quanto o ouro?
O que mais me atraiu em sua casa - uma casa bonita em um bairro arborizado desta grande cidade que ele chama de "São Paulo" - foi sua pequena biblioteca! Gastamos as horas do dia ou conversando, sobre meu mundo e o dele, ou as gasto por conta própria lendo livros e aquilo que ele chama de "Jornal". Já que estou aqui, ao menos entenderei como este mundo funciona, procurando um meio de voltar para casa.
Meu nome é Lebert, boêmio e violinista das ruas de Torendil. Bem, agora das ruas de "São Paulo", pelo menos enquanto estou perdido por aqui, dono orgulhoso de um violino feito de madeira feliz, algumas dezenas de peças de ouro e prata e de um peixe de cristal!...aham...vidro!
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
O segundo.
Começa o encontro... O encontro de dois amigos, separados por milhares de quilômetros, na maior parte do tempo.
E o encontro com vocês.
Espero que gostemos, todos, das palavras e imagens.
Boa viagem.
Cordialmente, o segundo.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
A mosca.
Uma mosca.
Sentado em sua cadeira habitual no canto do salão, o bardo tensiona uma das cordas do seu alaúde enquanto observa o voar aleatório e torpe de uma mosca. O bater de suas asas produz o tão peculiar zumbido, capaz de fazer o mais sábio dos homens tremerem de ira com o passar do tempo. Enquanto procura a harmonia entre as afinações das cordas do seu instrumento, o bardo vê a mosca pousar sobre uma mesa vazia. Passos vacilantes, para um lado e para o outro, com um propósito que apenas a mosca na sua ínfima cabeça - de mosca - seria capaz de compreender.
Seu olhar se perde no espaço vazio da taverna à sua frente: daqui a uma hora este lugar estará repleto de homens sedentos saídos de seus trabalhos, garçons e garçonetes tentando alcançar as mesas com pedidos nas mãos, viajantes espalhando o pó da terra de vários lugares enquanto caminham até o balcão - ah, esta entidade mística que é o balcão de uma taverna: lugar de gente desconhecida, solitária, ávida por uma cerveja e provavelmente por deixar suas histórias ali, no balcão, aos cuidados do taverneiro.
Há trabalho para quem quer, também, ao abrir da taverna: cozinheiros, garçons e o próprio taverneiro fazem a noite acontecer por aqui. Mulheres de origem duvidosa e ocupação igualmente duvidosa orbitam o lugar e há, ainda, os que trabalham juntando patrimônio - o dos outros.
"Alheia a tudo isto, vaga a mosca em busca de alimento..." - pensa o bardo. Ele próprio faz de tudo um pouco ali - menos a parte das moças duvidosas - além é óbvio de entreter todo este povo. As moedas de cobre e prata - quando há alguma - são só parte do pagamento. Seu espírito se regozija com o reconhecimento e o aplauso do seu semelhante mais do que seu corpo se compraz com um pedaço de carne com pão. "Muito embora a carne com pão seja bem vinda!" - diz o bardo, baixinho, para si mesmo.
A mosca continua seu vagar sem destino ou rumo certo pela taverna enquanto o bardo testa uma melodia simples nas cordas do seu alaúde...o bardo compreende a diferença que há - enorme, gritante - entre os seres que andam por esta terra, simplesmente, e aqueles capazes de apreciar a arte. "Mesmo um cachorro sendo fascinado pelo som de um instrumento, ele não pode tocá-lo tampouco explicar o que é aquilo..." - pensa, enquanto suas mãos flertam com as cordas, e seus olhos observam ainda a mosca que vaga sem direção pelo...
...BLAM - uma pancada seca, de som feio e fora do ritmo soa vinda do balcão. Em um movimento rápido de mão, o taverneiro põe fim à existência da mosca. A pancada interrompe a música do bardo enquanto a morte da mosca interrompe seu pensamento, sobrando apenas um olhar vazio por um breve instante de um segundo, como quem procura um novo sentido nas coisas. O momento rapidamente passa, enquanto o taverneiro limpa sua mão no pano em seu ombro. "O mesmo pano que ele usa para secar os copos..." pensa o bardo, assim que recobra sua lucidez. Imaginar as coisas que já foram limpas naquele pano faz da mosca o menor dos problemas e, para esquecer toda esta miríade de pensamentos confusos, o bardo vira-se para a porta de onde começam a surgir os primeiros rostos da noite.
De alaúde na mão, com dedos ágeis e voz melosa - e os pés displicentemente colocados sobre a mesa, muito embora o taverneiro não goste - o bardo entoa sua primeira canção. Suas mãos e lábios cantam, mas em sua mente uma mosca voa, solitária, entre cada vibrar de corda...
Sentado em sua cadeira habitual no canto do salão, o bardo tensiona uma das cordas do seu alaúde enquanto observa o voar aleatório e torpe de uma mosca. O bater de suas asas produz o tão peculiar zumbido, capaz de fazer o mais sábio dos homens tremerem de ira com o passar do tempo. Enquanto procura a harmonia entre as afinações das cordas do seu instrumento, o bardo vê a mosca pousar sobre uma mesa vazia. Passos vacilantes, para um lado e para o outro, com um propósito que apenas a mosca na sua ínfima cabeça - de mosca - seria capaz de compreender.
Seu olhar se perde no espaço vazio da taverna à sua frente: daqui a uma hora este lugar estará repleto de homens sedentos saídos de seus trabalhos, garçons e garçonetes tentando alcançar as mesas com pedidos nas mãos, viajantes espalhando o pó da terra de vários lugares enquanto caminham até o balcão - ah, esta entidade mística que é o balcão de uma taverna: lugar de gente desconhecida, solitária, ávida por uma cerveja e provavelmente por deixar suas histórias ali, no balcão, aos cuidados do taverneiro.
Há trabalho para quem quer, também, ao abrir da taverna: cozinheiros, garçons e o próprio taverneiro fazem a noite acontecer por aqui. Mulheres de origem duvidosa e ocupação igualmente duvidosa orbitam o lugar e há, ainda, os que trabalham juntando patrimônio - o dos outros.
"Alheia a tudo isto, vaga a mosca em busca de alimento..." - pensa o bardo. Ele próprio faz de tudo um pouco ali - menos a parte das moças duvidosas - além é óbvio de entreter todo este povo. As moedas de cobre e prata - quando há alguma - são só parte do pagamento. Seu espírito se regozija com o reconhecimento e o aplauso do seu semelhante mais do que seu corpo se compraz com um pedaço de carne com pão. "Muito embora a carne com pão seja bem vinda!" - diz o bardo, baixinho, para si mesmo.
A mosca continua seu vagar sem destino ou rumo certo pela taverna enquanto o bardo testa uma melodia simples nas cordas do seu alaúde...o bardo compreende a diferença que há - enorme, gritante - entre os seres que andam por esta terra, simplesmente, e aqueles capazes de apreciar a arte. "Mesmo um cachorro sendo fascinado pelo som de um instrumento, ele não pode tocá-lo tampouco explicar o que é aquilo..." - pensa, enquanto suas mãos flertam com as cordas, e seus olhos observam ainda a mosca que vaga sem direção pelo...
...BLAM - uma pancada seca, de som feio e fora do ritmo soa vinda do balcão. Em um movimento rápido de mão, o taverneiro põe fim à existência da mosca. A pancada interrompe a música do bardo enquanto a morte da mosca interrompe seu pensamento, sobrando apenas um olhar vazio por um breve instante de um segundo, como quem procura um novo sentido nas coisas. O momento rapidamente passa, enquanto o taverneiro limpa sua mão no pano em seu ombro. "O mesmo pano que ele usa para secar os copos..." pensa o bardo, assim que recobra sua lucidez. Imaginar as coisas que já foram limpas naquele pano faz da mosca o menor dos problemas e, para esquecer toda esta miríade de pensamentos confusos, o bardo vira-se para a porta de onde começam a surgir os primeiros rostos da noite.
De alaúde na mão, com dedos ágeis e voz melosa - e os pés displicentemente colocados sobre a mesa, muito embora o taverneiro não goste - o bardo entoa sua primeira canção. Suas mãos e lábios cantam, mas em sua mente uma mosca voa, solitária, entre cada vibrar de corda...
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