quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A mosca.

Uma mosca.
Sentado em sua cadeira habitual no canto do salão, o bardo tensiona uma das cordas do seu alaúde enquanto observa o voar aleatório e torpe de uma mosca. O bater de suas asas produz o tão peculiar zumbido, capaz de fazer o mais sábio dos homens tremerem de ira com o passar do tempo. Enquanto procura a harmonia entre as afinações das cordas do seu instrumento, o bardo vê a mosca pousar sobre uma mesa vazia. Passos vacilantes, para um lado e para o outro, com um propósito que apenas a mosca na sua ínfima cabeça - de mosca - seria capaz de compreender.
Seu olhar se perde no espaço vazio da taverna à sua frente: daqui a uma hora este lugar estará repleto de homens sedentos saídos de seus trabalhos, garçons e garçonetes tentando alcançar as mesas com pedidos nas mãos, viajantes espalhando o pó da terra de vários lugares enquanto caminham até o balcão - ah, esta entidade mística que é o balcão de uma taverna: lugar de gente desconhecida, solitária, ávida por uma cerveja e provavelmente por deixar suas histórias ali, no balcão, aos cuidados do taverneiro.
Há trabalho para quem quer, também, ao abrir da taverna: cozinheiros, garçons e o próprio taverneiro fazem a noite acontecer por aqui. Mulheres de origem duvidosa e ocupação igualmente duvidosa orbitam o lugar e há, ainda, os que trabalham juntando patrimônio - o dos outros.
"Alheia a tudo isto, vaga a mosca em busca de alimento..." - pensa o bardo. Ele próprio faz de tudo um pouco ali - menos a parte das moças duvidosas - além é óbvio de entreter todo este povo. As moedas de cobre e prata - quando há alguma - são só parte do pagamento. Seu espírito se regozija com o reconhecimento e o aplauso do seu semelhante mais do que seu corpo se compraz com um pedaço de carne com pão. "Muito embora a carne com pão seja bem vinda!" - diz o bardo, baixinho, para si mesmo.
A mosca continua seu vagar sem destino ou rumo certo pela taverna enquanto o bardo testa uma melodia simples nas cordas do seu alaúde...o bardo compreende a diferença que há - enorme, gritante - entre os seres que andam por esta terra, simplesmente, e aqueles capazes de apreciar a arte. "Mesmo um cachorro sendo fascinado pelo som de um instrumento, ele não pode tocá-lo tampouco explicar o que é aquilo..." - pensa, enquanto suas mãos flertam com as cordas, e seus olhos observam ainda a mosca que vaga sem direção pelo...
...BLAM - uma pancada seca, de som feio e fora do ritmo soa vinda do balcão. Em um movimento rápido de mão, o taverneiro põe fim à existência da mosca. A pancada interrompe a música do bardo enquanto a morte da mosca interrompe seu pensamento, sobrando apenas um olhar vazio por um breve instante de um segundo, como quem procura um novo sentido nas coisas. O momento rapidamente passa, enquanto o taverneiro limpa sua mão no pano em seu ombro. "O mesmo pano que ele usa para secar os copos..." pensa o bardo, assim que recobra sua lucidez. Imaginar as coisas que já foram limpas naquele pano faz da mosca o menor dos problemas e, para esquecer toda esta miríade de pensamentos confusos, o bardo vira-se para a porta de onde começam a surgir os primeiros rostos da noite.
De alaúde na mão, com dedos ágeis e voz melosa - e os pés displicentemente  colocados sobre a mesa, muito embora o taverneiro não goste - o bardo entoa sua primeira canção. Suas mãos e lábios cantam, mas em sua mente uma mosca voa, solitária, entre cada vibrar de corda...

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