O jogo corria bem...
Uma mesa redonda de poker estava
montada, com seis jogadores e duas cadeiras vazias. Seis versões dele mesmo,
sentadas à mesa, cada uma com cinco cartas na mão. O Racional olhava seus
companheiros com ar impassível, matemático, calculista. Já sabia que o Irônico
tinha uma mão ruim – só pela risadinha e a forma como jogara as cartas, viradas
pra baixo, à sua frente. O Melancólico olhou suas cartas e fez uma expressão
desolada, mas aquilo não significava nada: mesmo que fosse a melhor mão
possível, ainda sim não o animaria. O Pessimista – sentado ao lado do
Melancólico – passou a mão sem olhar as cartas: sabia que iria perder. O
Emotivo olhou sua mão e não conseguiu conter um risinho, entregando assim o
fato de ter alguma coisa boa nela. O último a receber fora o Volátil e,
seguindo regras próprias, seria também o primeiro a pedir.
O Volátil olhou, impassível, para
o Racional, entortou a boca e pôs as cartas na mesa:
- Duas...
- Duas...
O Racional jogou duas cartas para
o Volátil, tentando estudar sua expressão: de todos na mesa era o que lhe
representava maior ameaça. Sabia que o Volátil era tão inteligente e astuto
quanto ele próprio era, sua única desvantagem era ser estourado demais. Ele
olhou as cartas e colocou-as de volta na mesa, impassível. “Não foi dessa vez...” pensou o Racional.
O Emotivo passou a vez, ainda com
uma cara de felicidade disfarçada. O Pessimista só olhava a partida enquanto o
Melancólico pedia três – ou, ao menos era o que parecia.
- O que?
- Três – disse timidamente o Melancólico, meio
para si.
- Como? Três?
O Racional jogou três cartas na
frente do Melancólico, que olhou as cartas e continuou triste. O Irônico deu um
risinho de canto de boca e disse:
- Cinco.
- Cinco.
- Cinco? – disse o Racional, com uma expressão
incrédula – Você sabe as chances que você tem de puxar uma mão boa? – e olhou
as próprias cartas, para calcular por alto as chances.
- CINCO?? – Berrou o Volátil, levantando-se de
uma vez e quase derrubando as próprias fichas e as fichas arrumadas por ordem
de cor e tamanho do Racional – Pára de brincadeira! A mão está ruim? Passa a
mão, não fica atrasando o jogo!
- Amigo... se acalme. Eu estou calmo, você
está calmo?
Não fosse a intervenção do
Racional e do Emotivo, Volátil teria pulado no pescoço do Irônico ali mesmo –
Acalme-se, é o jogo, faz parte do jogo – disse Racional, segurando o Volátil
tempo o suficiente para ele se acalmar. Ele sentou-se, ainda pensando se
deveria voar no Irônico para tirar-lhe o sorriso de deboche da cara ou não.
- Eu vou pegar duas cartas. – disse o
Racional, quando os ânimos esfriaram.
Pegou as cartas e as olhou: Um
par de valetes. Fantástico! Com os dois setes da mão daria uma mão razoável,
talvez perdesse para o Emotivo, que ainda ria para si próprio, mas ainda sim
eram dois pares altos e valia a pena arriscar. Colocou a aposta na mesa,
seguido do Volátil – ainda neutro frente o jogo. O Pessimista baixou a cabeça
enquanto o Emotivo aumentava a aposta de trinta para quarenta. - "Mal sinal, a
mão dele deve mesmo ser boa..." – pensou o Racional.
O Melancólico estava distraído,
pensando em algo distante, tanto que o Racional pigarreou de propósito enquanto Volátil engolia em seco. Alarmado, ele empurrou trinta em fichas. –
Quarenta. – disse o Racional, enquanto Volátil colocava a mão no rosto em sinal
de desagrado. Rapidamente ele jogou uma ficha de dez no bolo.
- Quarenta mais...bah, só tenho vinte aqui.
Pessimista, me empresta cem. – disse o Irônico.
- COMO ASSIM “EMPRESTA”!? NÃO PODE EMPRESTAR!
– berrou de novo o Volátil enquanto o Pessimista dizia “Cara...isso não vai dar
certo...”
- Não pode emprestar. – Disse calmamente o
Racional.
- Ok...ok...ponho esses vinte aqui, to cansado
deste jogo mesmo.
O Racional olhou as próprias
cartas e cobriu os quarenta mais vinte. Olhou para o Volátil, que olhou de
volta – cada qual tentando pensar mais rápido que o outro – enquanto este
cobria a aposta também. O Melancólico cobriu a diferença e o Emotivo mal
conteve o riso quando baixou as cartas – fora da sua vez:
- Par de setes e par de três! – disse,
triunfante. – e tem esse Ás aqui!
O Volátil – subitamente acometido
de bom humor – deu uma gargalhada. O Racional sorriu, colocando as cartas na
mesa:
- Par de setes e par de valetes... e, pra
constar, eu também tenho um Ás. – disse, para desespero do Emotivo que começou
a lacrimejar. O Irônico olhou para o Racional com uma cara espantada mas feliz,
que se traduzia em algo do tipo: “Olha, você também sabe ser irônico!” – E
você, Melancólico?
- Ah... eu tenho do nove ao valete de copas, e
depois tenho esse dois e essa dama de paus...
- Cara... você não tem nada. – disse o
Volátil, calmamente.
- É... eu sei...
- NÃO, NÃO SABE! ENTÃO PORQUE CONTINUOU SUBINDO
AS APOSTAS E TUDO O MAIS!? – Algumas fichas de cinquenta da pilha
milimetricamente construída do Racional pularam quando o Volátil bateu na mesa
- Não fala assim com ele! – disse o Emotivo,
emotivo.
- Engraçado – interveio o Irônico, em um tom
irritante – sabe com quem você está parecendo, não sabe?
Encararam-se por alguns segundos,
até que o Volátil desviou o olhar da cara zombeteira do outro, dizendo:
- Não faço ideia. – mas ele sabia, todos sabiam.
O Pessimista levantou a cabeça por um instante e tornou a baixar, o Volátil
sentou-se enquanto o Racional desfez, nervosamente, uma pilha de fichas para
construí-la de novo. O Emotivo e o Melancólico foram os únicos a olhar através
da porta que dava para a cozinha, para a porta da despensa que estava trancada.
Fez-se dez segundos de silêncio, até que o Volátil disse:
- Bom, chega. Trinca de oito. Ninguém tem
nenhuma objeção, não é? – disse o Volátil, já olhando as fichas.
- Bah, como assim? – disse o Racional.
- É... daí complica mesmo. Eu só tenho
cincos... – disse o Irônico, colocando as cartas na mesa -... quatro deles! –
falou, sorrindo zombeteiramente.
- AH VELHO, COMO ASSIM!? - falaram alto, ao
mesmo tempo, o Racional e o Volátil, enquanto o Irônico puxava as fichas para
si.
- Você roubou! – falou acusadoramente o
Volátil.
- É matematicamente possível que ele tenha
puxado quatro cincos em cinco cartas – disse, categoricamente, o Racional.
- E logo quando eu ia sair do jogo hein! Que
ironia! – zombou o Irônico. O Emotivo achou interessante a virada na mesa e
expressou-se com um tímido, mas sincero, “Parabéns”. O Volátil entortou a boca
em um risinho esquisito enquanto o resto do rosto demonstrava irritação,
dizendo em uma voz fina: “Que ironia”.
Decidiram dar uma pausa, e foi nesse momento
que o Melancólico falou:
- Não era bom darmos uma olhada nele? –
apontando a despensa.
- Eu concordo – disse o Emotivo – vocês não
planejam deixar ele lá, né?
Os outros quatro na mesa se
olharam, avaliando a situação.
- Pode ser perigoso – disse o Racional.
- Ele quase matou todos nós, não acho boa
ideia – disse o Volátil.
- Foi o jeito dele de reagir... começou o
Melancólico, mas calou-se.
- ... à morte do Otimista – completou o Pessimista, em tom duro. Todos olharam pra ele, estranhando aquela intervenção muito pouco habitual.
- ... à morte do Otimista – completou o Pessimista, em tom duro. Todos olharam pra ele, estranhando aquela intervenção muito pouco habitual.
- Não fala assim... ainda não superei... –
disse o Emotivo, e abraçou-se ao Melancólico, os dois chorando baixo.
- Que é, gente? – disse o Pessimista –
Aconteceu, temos que encarar os fatos.
- Tudo bem, mas ainda sim não dá o direito a
ninguém de arriscar todos! – interveio o Volátil.
- É... mas ainda sim, não vamos deixá-lo lá
sem ao menos ver se está bem – falou o Irônico.
O acontecido tinha sido trágico:
o Otimista havia sido morto covardemente... primeiro, envenenado ao longo do
tempo. Quando questionavam o fato de ele estar morrendo, ele sempre respondia:
“Morrendo nada!” e sorria. Ele estava demorando muito a morrer então a
assassina – sim, uma mulher, talvez com mais cúmplices – resolveu usar métodos
mais diretos: três tiros nas costas e treze facadas pelo corpo, após isso ela
atirou o Otimista – ainda vivo – de um carro em movimento, barranco abaixo. Os
sete foram reconhecer o corpo, cheios de pesar. As coisas tornaram-se feias
mesmo quando, ao contrário da expectativa geral, o Otimista exibia uma cara
post-mortem de consternação, espanto e dor na mesa do legista. Significava que
ele havia morrido mesmo e aquilo fora a gota d’água para o Furioso, o mais
descontrolado, vingativo e destrutivo dos oito. Por onde andou deixou um rastro
de desolação e escombros enquanto voltava para casa, quase a destruindo quando
lá chegou. Na tentativa de detê-lo, os outros seis partiram para controlá-lo e
quase morreram no processo, tiveram sorte de a casa não vir abaixo. O Volátil
ainda tinha o olho um pouco roxo, e reclamava de dores todos os dias – embora
todos soubessem ser um exagero. O Pessimista trazia uma cicatriz de corte no
braço que, antes mesmo de ficar curada, já havia sido profetizada por ele. O
Emotivo tentou separar todos e passou dois dias desmaiado no sofá.
Levantaram-se, ainda discutindo:
O Racional e o Volátil de má vontade, o Emotivo na frente, para pegar a chave.
Ao passar pelas cartas do Pessimista, o Racional olhou a mão discretamente: “Full House de quatros e reis...” não
bateria o Irônico, mas não era uma mão que ele próprio teria passado. “Ele não muda nunca...” – pensou. Andaram
até a despensa e abriram a porta trancada com duas voltas de chave e cadeado. Lá
dentro estava escuro, e todos sentiram suas narinas serem invadidas pelo cheiro
de suor. Dois globos brilhantes com orbes negras encaravam, de dentro da escuridão,
os seis parados na porta: o Furioso estava amarrado em uma cadeira, amordaçado,
com mais de uma corda e nós em diferentes pontos. Tudo da despensa havia sido
retirado para que ele não se ferisse ao se debater, ou ao tentar escapar.
Muitas vezes ele tentava, e os outros seis temiam – e tremiam - mas até agora
os nós cirurgicamente dados pelo Racional não haviam cedido. Mesmo com tudo
parecendo seguro, ninguém se atreveu a passar do batente.
- Furioso, você está bem? – perguntou,
cautelosamente, o Emotivo.
- ...
- Só faz que não com a cabeça – disse o
Pessimista.
- ...
- Como você pode dizer que a resposta será
“não?” Deixe de ser tendencioso! Quem mania! – falou abruptamente o Volátil.
- Desculpe Volátil... mas ele está amarrado.
Seria lógico que não se sentisse “bem” – disse o Racional, com ares de quem
tinha razão. Brincava com uma moeda entre os dedos enquanto falava, certo de
que estava certo – e, na maioria das vezes, estava mesmo.
Mesmo com a discussão à porta,
Furioso não fizera movimento algum. Estava estático, os músculos se
pressionando contra as cordas. Se fazia força, não dava pra saber: parecia
estar relaxado, e mesmo assim havia tensão em seu olhar. Era consenso geral que
permaneceria ali, pois embora só fosse um ele era facilmente mais forte, rápido
e imprevisível que os outros.
- Bem, se continuar sem se debater nós podemos
deixar você sair... – falou o Melancólico – eu fico triste com essa situação...
Sentiram, naquele momento, o olhar penetrante
dele. “É o mais forte de nós, mas sem o
Otimista para controlá-lo, é força desperdiçada... mais um perigo que
propriamente útil...mas ainda sim o mais capaz...” – pensou o Racional.
- Bom...vou fazer um lanche. Vou fazer um
sanduíche pra ele também, se alguém se dispuser a... – falou o Emotivo com um
sorriso esperançoso na voz, só para ser interrompido bruscamente pelo Volátil:
- MAS QUE IDEIA! Vai você lá!
Começou uma discussão acalorada e
um empurra-empurra, até que um barulho agudo interrompeu a fala de todos... e
outro, e outro, cada vez menores e distantes, vindo de dentro da despensa. A
moeda com a qual o Racional brincava caiu, quicando na direção do Furioso até
bater na perna de madeira, rodando parada sobre a própria borda até parar
completamente ao lado do pé da cadeira. A coroa de dez centavos ficou ali,
encarando o Furioso que olhava para baixo apenas com os olhos, até que este
levantou os olhos e encontrou os olhos do Racional.
- Não vais pegar a moeda? – perguntou o
Pessimista.
- Não precisa – respondeu o Racional, ainda
olhando nos olhos do Furioso – mesmo ele não conseguirá cortar essas cordas com
uma moeda de dez centavos. Anda, vamos comer algo e continuar o jogo.
E fechou a porta, ainda olhando
nos olhos do irmão amarrado, sem quebrar o contato até o último segundo. Havia
entendimento no olhar de ambos.