domingo, 16 de junho de 2013

As Oito Faces

O jogo corria bem...
Uma mesa redonda de poker estava montada, com seis jogadores e duas cadeiras vazias. Seis versões dele mesmo, sentadas à mesa, cada uma com cinco cartas na mão. O Racional olhava seus companheiros com ar impassível, matemático, calculista. Já sabia que o Irônico tinha uma mão ruim – só pela risadinha e a forma como jogara as cartas, viradas pra baixo, à sua frente. O Melancólico olhou suas cartas e fez uma expressão desolada, mas aquilo não significava nada: mesmo que fosse a melhor mão possível, ainda sim não o animaria. O Pessimista – sentado ao lado do Melancólico – passou a mão sem olhar as cartas: sabia que iria perder. O Emotivo olhou sua mão e não conseguiu conter um risinho, entregando assim o fato de ter alguma coisa boa nela. O último a receber fora o Volátil e, seguindo regras próprias, seria também o primeiro a pedir.
O Volátil olhou, impassível, para o Racional, entortou a boca e pôs as cartas na mesa:
 - Duas...
O Racional jogou duas cartas para o Volátil, tentando estudar sua expressão: de todos na mesa era o que lhe representava maior ameaça. Sabia que o Volátil era tão inteligente e astuto quanto ele próprio era, sua única desvantagem era ser estourado demais. Ele olhou as cartas e colocou-as de volta na mesa, impassível. “Não foi dessa vez...” pensou o Racional.
O Emotivo passou a vez, ainda com uma cara de felicidade disfarçada. O Pessimista só olhava a partida enquanto o Melancólico pedia três – ou, ao menos era o que parecia.
 - O que?
 - Três – disse timidamente o Melancólico, meio para si.
 - Como? Três?
O Racional jogou três cartas na frente do Melancólico, que olhou as cartas e continuou triste. O Irônico deu um risinho de canto de boca e disse:
 - Cinco.
 - Cinco? – disse o Racional, com uma expressão incrédula – Você sabe as chances que você tem de puxar uma mão boa? – e olhou as próprias cartas, para calcular por alto as chances.
 - CINCO?? – Berrou o Volátil, levantando-se de uma vez e quase derrubando as próprias fichas e as fichas arrumadas por ordem de cor e tamanho do Racional – Pára de brincadeira! A mão está ruim? Passa a mão, não fica atrasando o jogo!
 - Amigo... se acalme. Eu estou calmo, você está calmo?
Não fosse a intervenção do Racional e do Emotivo, Volátil teria pulado no pescoço do Irônico ali mesmo – Acalme-se, é o jogo, faz parte do jogo – disse Racional, segurando o Volátil tempo o suficiente para ele se acalmar. Ele sentou-se, ainda pensando se deveria voar no Irônico para tirar-lhe o sorriso de deboche da cara ou não.
 - Eu vou pegar duas cartas. – disse o Racional, quando os ânimos esfriaram.
Pegou as cartas e as olhou: Um par de valetes. Fantástico! Com os dois setes da mão daria uma mão razoável, talvez perdesse para o Emotivo, que ainda ria para si próprio, mas ainda sim eram dois pares altos e valia a pena arriscar. Colocou a aposta na mesa, seguido do Volátil – ainda neutro frente o jogo. O Pessimista baixou a cabeça enquanto o Emotivo aumentava a aposta de trinta para quarenta. - "Mal sinal, a mão dele deve mesmo ser boa..." – pensou o Racional.
O Melancólico estava distraído, pensando em algo distante, tanto que o Racional pigarreou de propósito enquanto Volátil engolia em seco. Alarmado, ele empurrou trinta em fichas. – Quarenta. – disse o Racional, enquanto Volátil colocava a mão no rosto em sinal de desagrado. Rapidamente ele jogou uma ficha de dez no bolo.
 - Quarenta mais...bah, só tenho vinte aqui. Pessimista, me empresta cem. – disse o Irônico.
 - COMO ASSIM “EMPRESTA”!? NÃO PODE EMPRESTAR! – berrou de novo o Volátil enquanto o Pessimista dizia “Cara...isso não vai dar certo...”
 - Não pode emprestar. – Disse calmamente o Racional.
 - Ok...ok...ponho esses vinte aqui, to cansado deste jogo mesmo.
O Racional olhou as próprias cartas e cobriu os quarenta mais vinte. Olhou para o Volátil, que olhou de volta – cada qual tentando pensar mais rápido que o outro – enquanto este cobria a aposta também. O Melancólico cobriu a diferença e o Emotivo mal conteve o riso quando baixou as cartas – fora da sua vez:
 - Par de setes e par de três! – disse, triunfante. – e tem esse Ás aqui!
O Volátil – subitamente acometido de bom humor – deu uma gargalhada. O Racional sorriu, colocando as cartas na mesa:
 - Par de setes e par de valetes... e, pra constar, eu também tenho um Ás. – disse, para desespero do Emotivo que começou a lacrimejar. O Irônico olhou para o Racional com uma cara espantada mas feliz, que se traduzia em algo do tipo: “Olha, você também sabe ser irônico!” – E você, Melancólico?
 - Ah... eu tenho do nove ao valete de copas, e depois tenho esse dois e essa dama de paus... 
 - Cara... você não tem nada. – disse o Volátil, calmamente.
 - É... eu sei...
 - NÃO, NÃO SABE! ENTÃO PORQUE CONTINUOU SUBINDO AS APOSTAS E TUDO O MAIS!? – Algumas fichas de cinquenta da pilha milimetricamente construída do Racional pularam quando o Volátil bateu na mesa
 - Não fala assim com ele! – disse o Emotivo, emotivo.
 - Engraçado – interveio o Irônico, em um tom irritante – sabe com quem você está parecendo, não sabe?
Encararam-se por alguns segundos, até que o Volátil desviou o olhar da cara zombeteira do outro, dizendo:
 - Não faço ideia. – mas ele sabia, todos sabiam. O Pessimista levantou a cabeça por um instante e tornou a baixar, o Volátil sentou-se enquanto o Racional desfez, nervosamente, uma pilha de fichas para construí-la de novo. O Emotivo e o Melancólico foram os únicos a olhar através da porta que dava para a cozinha, para a porta da despensa que estava trancada. Fez-se dez segundos de silêncio, até que o Volátil disse:
 - Bom, chega. Trinca de oito. Ninguém tem nenhuma objeção, não é? – disse o Volátil, já olhando as fichas.
 - Bah, como assim? – disse o Racional.
 - É... daí complica mesmo. Eu só tenho cincos... – disse o Irônico, colocando as cartas na mesa -... quatro deles! – falou, sorrindo zombeteiramente.
 - AH VELHO, COMO ASSIM!? - falaram alto, ao mesmo tempo, o Racional e o Volátil, enquanto o Irônico puxava as fichas para si.
 - Você roubou! – falou acusadoramente o Volátil.
 - É matematicamente possível que ele tenha puxado quatro cincos em cinco cartas – disse, categoricamente, o Racional.
 - E logo quando eu ia sair do jogo hein! Que ironia! – zombou o Irônico. O Emotivo achou interessante a virada na mesa e expressou-se com um tímido, mas sincero, “Parabéns”. O Volátil entortou a boca em um risinho esquisito enquanto o resto do rosto demonstrava irritação, dizendo em uma voz fina: “Que ironia”.
 Decidiram dar uma pausa, e foi nesse momento que o Melancólico falou:
 - Não era bom darmos uma olhada nele? – apontando a despensa.
 - Eu concordo – disse o Emotivo – vocês não planejam deixar ele lá, né?
Os outros quatro na mesa se olharam, avaliando a situação.
 - Pode ser perigoso – disse o Racional.
 - Ele quase matou todos nós, não acho boa ideia – disse o Volátil.
 - Foi o jeito dele de reagir... começou o Melancólico, mas calou-se.
 - ... à morte do Otimista – completou o Pessimista, em tom duro. Todos olharam pra ele, estranhando aquela intervenção muito pouco habitual.
 - Não fala assim... ainda não superei... – disse o Emotivo, e abraçou-se ao Melancólico, os dois chorando baixo.
 - Que é, gente? – disse o Pessimista – Aconteceu, temos que encarar os fatos.
 - Tudo bem, mas ainda sim não dá o direito a ninguém de arriscar todos! – interveio o Volátil.
 - É... mas ainda sim, não vamos deixá-lo lá sem ao menos ver se está bem – falou o Irônico.
O acontecido tinha sido trágico: o Otimista havia sido morto covardemente... primeiro, envenenado ao longo do tempo. Quando questionavam o fato de ele estar morrendo, ele sempre respondia: “Morrendo nada!” e sorria. Ele estava demorando muito a morrer então a assassina – sim, uma mulher, talvez com mais cúmplices – resolveu usar métodos mais diretos: três tiros nas costas e treze facadas pelo corpo, após isso ela atirou o Otimista – ainda vivo – de um carro em movimento, barranco abaixo. Os sete foram reconhecer o corpo, cheios de pesar. As coisas tornaram-se feias mesmo quando, ao contrário da expectativa geral, o Otimista exibia uma cara post-mortem de consternação, espanto e dor na mesa do legista. Significava que ele havia morrido mesmo e aquilo fora a gota d’água para o Furioso, o mais descontrolado, vingativo e destrutivo dos oito. Por onde andou deixou um rastro de desolação e escombros enquanto voltava para casa, quase a destruindo quando lá chegou. Na tentativa de detê-lo, os outros seis partiram para controlá-lo e quase morreram no processo, tiveram sorte de a casa não vir abaixo. O Volátil ainda tinha o olho um pouco roxo, e reclamava de dores todos os dias – embora todos soubessem ser um exagero. O Pessimista trazia uma cicatriz de corte no braço que, antes mesmo de ficar curada, já havia sido profetizada por ele. O Emotivo tentou separar todos e passou dois dias desmaiado no sofá.
Levantaram-se, ainda discutindo: O Racional e o Volátil de má vontade, o Emotivo na frente, para pegar a chave. Ao passar pelas cartas do Pessimista, o Racional olhou a mão discretamente: “Full House de quatros e reis...” não bateria o Irônico, mas não era uma mão que ele próprio teria passado. “Ele não muda nunca...” – pensou. Andaram até a despensa e abriram a porta trancada com duas voltas de chave e cadeado. Lá dentro estava escuro, e todos sentiram suas narinas serem invadidas pelo cheiro de suor. Dois globos brilhantes com orbes negras encaravam, de dentro da escuridão, os seis parados na porta: o Furioso estava amarrado em uma cadeira, amordaçado, com mais de uma corda e nós em diferentes pontos. Tudo da despensa havia sido retirado para que ele não se ferisse ao se debater, ou ao tentar escapar. Muitas vezes ele tentava, e os outros seis temiam – e tremiam - mas até agora os nós cirurgicamente dados pelo Racional não haviam cedido. Mesmo com tudo parecendo seguro, ninguém se atreveu a passar do batente.
 - Furioso, você está bem? – perguntou, cautelosamente, o Emotivo.
 - ...
 - Só faz que não com a cabeça – disse o Pessimista.
 - ...
 - Como você pode dizer que a resposta será “não?” Deixe de ser tendencioso! Quem mania! – falou abruptamente o Volátil.
 - Desculpe Volátil... mas ele está amarrado. Seria lógico que não se sentisse “bem” – disse o Racional, com ares de quem tinha razão. Brincava com uma moeda entre os dedos enquanto falava, certo de que estava certo – e, na maioria das vezes, estava mesmo.
Mesmo com a discussão à porta, Furioso não fizera movimento algum. Estava estático, os músculos se pressionando contra as cordas. Se fazia força, não dava pra saber: parecia estar relaxado, e mesmo assim havia tensão em seu olhar. Era consenso geral que permaneceria ali, pois embora só fosse um ele era facilmente mais forte, rápido e imprevisível que os outros.
 - Bem, se continuar sem se debater nós podemos deixar você sair... – falou o Melancólico – eu fico triste com essa situação...
 Sentiram, naquele momento, o olhar penetrante dele. “É o mais forte de nós, mas sem o Otimista para controlá-lo, é força desperdiçada... mais um perigo que propriamente útil...mas ainda sim o mais capaz...” – pensou o Racional.
 - Bom...vou fazer um lanche. Vou fazer um sanduíche pra ele também, se alguém se dispuser a... – falou o Emotivo com um sorriso esperançoso na voz, só para ser interrompido bruscamente pelo Volátil:
 - MAS QUE IDEIA! Vai você lá!
Começou uma discussão acalorada e um empurra-empurra, até que um barulho agudo interrompeu a fala de todos... e outro, e outro, cada vez menores e distantes, vindo de dentro da despensa. A moeda com a qual o Racional brincava caiu, quicando na direção do Furioso até bater na perna de madeira, rodando parada sobre a própria borda até parar completamente ao lado do pé da cadeira. A coroa de dez centavos ficou ali, encarando o Furioso que olhava para baixo apenas com os olhos, até que este levantou os olhos e encontrou os olhos do Racional.
 - Não vais pegar a moeda? – perguntou o Pessimista.
 - Não precisa – respondeu o Racional, ainda olhando nos olhos do Furioso – mesmo ele não conseguirá cortar essas cordas com uma moeda de dez centavos. Anda, vamos comer algo e continuar o jogo.
E fechou a porta, ainda olhando nos olhos do irmão amarrado, sem quebrar o contato até o último segundo. Havia entendimento no olhar de ambos.



sábado, 15 de junho de 2013

Resposta quando indagado sobre o conteúdo dos textos aqui postados e de onde tiro inspiração:

Saída da alma é a inspiração
Breve, rápida, seca em sua forma
O coração de quem a sente, a torna
Em obra, feita, material em sua feição

Seja um texto curto de fantasia,
Uma narrativa carregada de paixão,
Brigas, lutas, caos e confusão
Ou mesmo formatadas poesias

Vem de dentro, daqui, da mente
Para ficar exposta, à vista
Do apreciador da arte, inocente

Que ignorante em sua pose elitista
Mal sabe, ao ver a obra imponente
Que a maioria ficou no artista...