sexta-feira, 15 de maio de 2015

Kuvek Mendar - Parte 1


NOTA: Este texto foi escrito para introduzir à um amigo este personagem (ele iria jogar uma sessão apenas, acabou nem jogando) por isso a narração com observador ativo (você vê, você anda, você se sente...etc). Fui revisar o texto e agora ele está aumentando de tamanho, por isso vou colocar em duas partes.




Kuvek Mendar - "Como você chegou até aqui?" - Parte 1.




Quem diria... chuva. 
Chuva é a lembrança mais doce e dolorosa na sua vida, Kuvek Mendar: de todas as aventuras das quais você participou – seja de verdade ou apenas nos exageros de um bardo qualquer - escapar de Tungraesh[1] foi de certeza a mais real. Não, você não saiu de lá montado em uma mulher orc e empunhando uma espada mágica, como os bardos contam: Foi sofrido e angustiante ter toda escuridão, calor e umidade contra você em um lugar onde tudo quer te matar e, quando finalmente – a despeito da probabilidade baixíssima – você viu novamente o céu, ele não estava azul e sim cinzento de chuva.

Você é uma lenda viva: desconhecido para o cidadão comum e tido como morto pelas autoridades, em compensação é respeitado no submundo por ser o homem para qualquer tarefa, no geral aquelas que ninguém mais quer fazer. Os bardos cantam muito seus feitos: neles você é Kuvek de 10 anéis! – o destemido ladrão que recusou dez anéis raros de presente dos bardos (é mentira, foram apenas seis. Divertido é pensar que o líder da guilda deles tem a quantidade máxima permitida, que é nove), ou Kuvek Rei dos Orcs! (só por falar orkae? Aprender na prisão não é tão glorioso como conquistar os reinos orcs sozinho, montado em uma mulher orc e empunhando uma espada mágica, como dizem...), Kuvek de Mil Faces (quase verdade. Tantos usam seu nome que na maioria das vezes não vale a pena nem se apresentar...) ou ainda Kuvek o Falso Amante (essa é mentira! Onde já se viu seduzir mãe e três filhas para descobrir a localização de um tesouro de família? Você as seduziria por muito menos. O segredo era guardado pela velha avó, isso sim... mas algumas verdades ficam melhores se mantidas para si). Homens de menos sorte se fazem passar por você nas estalagens para tentar ganhar a vida e seduzir as garçonetes – garçonetes estas que sonham com o dia que você invadirá seus quartos durante a noite, com sua “espada mágica”. Pessoas desesperadas por uma solução improvável para seus problemas procuram por você em todas as tavernas. Guardas temem por suas vidas na escuridão da noite. Garotos pobres nos becos de Torendil sonham em ser você um dia.

Você abriria mão das histórias facilmente para não estar onde está agora, seguindo uma fila de homens amarrados com cordas - na chuva - para algum lugar e destino que você ignora. Na verdade esta é sua missão, e há lógica no fato de ser levado até lá e instruído sobre algo ao invés de os seguir e ser morto por um batedor. A instrução pareceu muito sólida quando você discutia a missão com seu contratante... você só esqueceu-se de ponderar sobre a parte da caminhada em fila, amarrado, ou a parte da pouca comida (depois de Tungraesh não é qualquer fome que te abate, mas esta está chegando perto) ou ainda a parte dos chutes e das pauladas – apesar de fazer o possível para cooperar, apanhando o mínimo necessário no processo, é sagrado que os prisioneiros vão ser acordados com um chute. Ou dois. Ou cinco.

Uma pedra do tamanho de uma cereja é sua única posse. De um azul profundo, lhe foi entregue em um movimento engenhoso depois que você foi capturado: você não sabe como, mas um carcereiro distribuía laranjas para os presos antes de a viagem começar e a pedra estava dentro da sua. Era suposto você receber algo para levar escondido na viagem, você só não sabia o que seria. Os Ciraxaed[2] o “capturaram” na cidade de Barril e se tu tivesse a posse da pedra nesta altura, certamente a achariam: você passou por, pelo menos, três revistas nos oito dias que esteve encarcerado. Já os orcs são mais estúpidos e não ficam revistando os prisioneiros, só lhes interessa terminar a viagem para ganhar sua recompensa.

Nenhum prisioneiro ou orc sabe que você fala orkae, e neste tempo de viagem você tem ouvido coisas que parecem dar uma pista do que está por vir: algo sobre “O Trabalho” (é assim que os orcs se referem... os homens para fazer “o trabalho”) e a guerra. Certa vez você ouviu uma conversa onde um orc – Trarru – dizia que “era muito mais divertido no começo, agora não há nada para pilhar”. Você contou dezesseis prisioneiros, todos homens robustos com caras de agricultores, ferreiros e pastores, mas nenhuma chama de batalha nos olhos, escoltados por vinte e cinco orcs – sete deles muito bem armados enquanto o resto puxa carros com comida e ajuda na escolta dos prisioneiros, munidos de não muito mais do que clavas e pedaços de pau. O terreno é plano e vocês caminham pela estrada entre Barril e Haigahor. O rio Torendas passa a mais ou menos um quilômetro à sua esquerda, e em ambas as margens vê-se fumaça subindo de destroços de casas, campos queimados e árvores derrubadas. Aqui e ali, um corpo ou uma carcaça de animal. O vento vem frio das montanhas durante o dia, congelando durante a noite, e a chuva de que tanto gosta não ajuda em nada nessas horas. Alguns prisioneiros começam a tossir já no segundo dia de caminhada, o que lhes rende mais uma carga de pancada.

No terceiro dia de caminhada o prisioneiro da sua frente falou com você. “Um recado”, disse ele: “Ao fim da sua jornada ou se sua vida correr perigo, quebre aquilo de mais valioso que você tiver por perto”. Veher era seu nome, um homem de feições simples e sofridas, mais um trabalhador sem gosto pela batalha vítima da crueldade da guerra. Segundo ele um homem, após ele ser capturado, daria muito dinheiro para a família dele se esta mensagem fosse transmitida fielmente, embora ele mesmo não soubesse o que significava.
- Seja lá o que for, não custava nada falar – ele lhe disse.
Você não entende o por quê das informações virem até você de forma fragmentada. "Era muito mais fácil ter dito tudo logo. Malditos elfos." - você pensa.
Você nota que ele não era originalmente o preso da sua frente – você é o décimo primeiro da fila – e Veher lhe conta que vem se esforçando para chegar perto de você e trocando de posição com os presos durante a noite. Um grande risco, diga-se de passagem: a noite os homens são desamarrados para dormir, mas serão mortos pelos sentinelas no caso de se levantarem. “Trocávamos de lugar rastejando, muito devagar para parecer movimentos de sono. Foi sorte todos cooperarem”.
Veher é a única coisa próxima de um aliado que você tem: a comunicação tem que ser baixa e breve, conversas entre os presos pode render umas pauladas. Lavrador, de família pobre, foi preso pelos Ciraxaed sem resistência – “Quem tenta resistir, morre” – disse ele, certa vez. Não é a primeira viagem desta, você soube, e nela sempre estão homens adultos. “Mulher e duas filhas, duas vacas e um moinho, é tudo que eu tenho.” – disse ele. “E você?” – após pensar por um ou dois minutos e ensaiar um “Não muito...”, um orc se aproximou demais e Veher acabou ficando sem resposta.

A viagem vem sendo lenta e árdua. Alguns dos homens – incluindo dois dos mais velhos – começam a tossir bastante, e a alimentação não passa de pão e cenoura de dia, água e uma sopa, à noite, que só um orc poderia fazer. Com o passar dos dias a caminhada torna-se ainda mais puxada com o cansaço começando a se acumular nos músculos.

No décimo primeiro dia de viagem, a tragédia: alguns prisioneiros levados ao limite incitam uma revolta durante a noite: atacam um dos sentinelas, levando-o ao chão e matando-o a pedradas. Cinco dos homens participaram do levante (os outros, incluindo você, dormiam. Na confusão você acordou, mas seu instinto fez com que continuasse deitado) e, após matarem o orc, tentaram correr na escuridão. Cansados, doloridos e mal nutridos, não tiveram muita chance contra orcs bem alimentados. Em menos de 10 minutos já haviam sido alcançados e mortos – Veher era um deles.

Os dias passam mais lentamente agora: os orcs, zangados, tentam imprimir um ritmo maior à marcha. Sem Veher, não há cochichos para se distrair, apesar de nenhum cochicho ser mais tolerado. O mau humor dos orcs é evidente mas os maus tratos aos prisioneiros diminuíram. “Já perdemos carga, se chegarmos com menos carga não tem ouro. Evitem bater nos prisioneiros, eles vão ter a cota de dor deles em breve!” – Gruthag, líder do bando, gritou para os outros orcs na manhã seguinte à revolta. As caras fechadas e os rosnados dos orcs para os prisioneiros aumentaram, você sente suas pernas fraquejando. Seu estômago parou de roncar – deve ter desistido, ou morrido. Quando - após vinte e dois dias se arrastando em uma viagem que demoraria dez - você chega ao seu destino, a visão do lugar o faz pensar: “às vezes era melhor continuar caminhando...”.







[1] Tungraesh é uma sentença de morte: sabe-se que é um labirinto construído sob as montanhas, fundo dentro da terra, habitado por monstros e animais amaldiçoados Dizem que lá há uma cidade, mas ninguém nunca foi e voltou pra dizer se há mesmo. Torendil (maior e mais próspero reino humano de Gameda, que é como os homens chamam este continente) possui um forte militar nos pés de uma cordilheira que guarda a única entrada conhecida para o lugar. Quando um prisioneiro é sentenciado à morte, ele ganha um pão, uma faca e uma tocha acesa e é empurrado porta adentro em direção a Tungraesh. Os que tentam voltar ao portão e pedir clemência são alvejados. Todos sabem disso, mas a maioria tenta. Escapar de uma sentença de morte indica favorecimento divino, logo os que o fazem não podem ser sentenciados à morte novamente em Torendil (você é um dos raríssimos casos documentados...).
[2] Literalmente, homens de Cirax. Cirax é o flagelo do mundo, deus gerador de tudo que é mau. Longa história, única coisa que você sabe direito é que os Ciraxaed declararam guerra em Torendil, marcharam na capital e com um exército monstruoso de monstros (a é...) tomaram a cidade. Agora a guerra está em toda parte.