Caminhavam lado a lado, Niläium e Sä'dean'lor, bardo e clérigo, respectivamente, como a vida (e suas escolhas...) os fizera.
Visitavam uma instância agreste, junto à encosta de modesta montanha, cujas trilhas agora percorriam, no rumo de uma casa simples, onde morava uma senhora do conhecimento de Sä'dean.
O sol ardia inclemente, na abóbada em branco azulado e o zênite se insinuava para muito breve. Gotas grossas de suor escorriam de ambas as faces: a geralmente sorridente (e, naquele dia, um tanto serena) do bardo e a sempre serena (e, naquele dia, um tanto sorridente) do clérigo, enquanto, atrás deles, Sinlionïra (sacerdotisa) e Tardighän (homem de armas, embora pacífico por natureza), andavam em silêncio, igualmente sentindo o bafejo ardente do carro viajor do Incriado.
Mas, naquele segundo, Niläium não olhava para trás, para admirar (coisa de que ele não se cansava) a beleza da clériga (com foros de paladina) ou para averiguar se o jovem guerreiro (e seu amigo) estava em paz.
O bardo olhava para o tempo, como uma criança num campo de sonhos olha para um castelo de cristal, sem poder entendê-lo, duvidando mesmo da sua realidade, enquanto tenta, quase em vão, apreender seus contornos e entender a engenharia que o constituiu.
Olhava para dentro de si mesmo, para perceber o que havia acontecido com seu íntimo, em tantos anos. Pensava no humano/clérigo, no amor e na dádiva do perdão; pensava no humano/guerreiro, no esforço ininterrupto pela busca da harmonia interior; pensava na meio-elfa/clériga, nas escolhas de antes da vida carnal, nas renúncias, no trabalho.
Em seu silêncio, disse a cada um que os amava e desejou oferecer-lhes, na quietude da manhã alta, uma canção de paz e de elevação, onde a gratidão pela dádiva de conhecê-los estivesse presente, embora velada.
Mas não cantou... Não com sua voz. A alma, porém, moveu a lira imortal dos sentimentos e as vibrações de suas cordas de ouro se espraiaram ao redor dele, talvez (ele pensou, ingenuamente...) atingindo o coração de seus amigos e irmãos.
Os pássaros negros agitaram-se no mato que beirava a estrada e todos se voltaram, juntos, para mirá-los, tecendo, cada qual, sua pequena consideração de espanto...