segunda-feira, 11 de março de 2013

A vida dos bardos é perigosa...

O bardo morto.
A vida dos bardos é perigosa. Para os mais sensíveis, o amor, a paixão e a sensualidade são venturosas armadilhas ou desgraçadas bênçãos. Para os menos sensíveis, a noite, seus prazeres, suas psicosferas, suas energias, seus fluidos são todo um caleidoscópio de tentações e desafios práticos para qual seja a filosofia que esposam (sabido que a quase totalidade dos bardos não é muito chegada a perquirições teóricas acerca da virtude ou da natureza das coisas... Quase sempre se riem, quando descobrem as três pilastras da deontologia de um dos pais da Filosofia nascida às margens do grande mar territorial: Uma coisa é o que ela é. Uma coisa não pode ser e não ser o que ela é, ao mesmo tempo. Uma coisa é ou não é.).
Um bardo faleceu, há três dias ou cinco. Um dos sensíveis. Compunha poemas e canções de amor e paixão. Até os infantes o adoravam. Brincava ainda nalgumas coisas de criança, é verdade, mesmo tendo mulher e filhos (durante sua vida, nosso sol vira este mundo o rodear quarenta e três vezes). Amava os amigos; brigava com eles. Amava sua mulher; tornava sua vida difícil... Até que, pelo que se conta nas tavernas, ela se cansou, não aguentou mais.
Dizem que a noite o tomou para si. A noite do mundo, a noite das tavernas, a noite de sua própria alma. A noite e suas substâncias, suas energias.
A noite o seduziu? Talvez. As dores do mundo fizeram sua parte também, esteja seguro.
Uma vez o ouvi dizer que sonhara com o pai há muito morto. O velho lhe dissera o que era a vida e lhe mostrara o além túmulo dos bem-aventurados. E o velho lhe pareceu muito bem (apesar de não estar mais vivo!). A conversa lhe deu paz, ele dizia; mudou sua visão do mundo, deste mundo e do outro, da vida e das coisas que estão nela, do que ela é feita.
Não o conheci muito, nem de perto. Nem gostava tanto assim de suas canções e poemas. Minha irmã (que não sabe quase nada de bardos) diz que ele era apenas um adulto imaturo, um homem se enganando e se perpetuando nos derradeiros andares do castelo da infância, da irresponsabilidade. Quem o saberá, agora?
A mulher desabafou, quando o corpo do amado morto desceu à cripta cerimonial, para ser posto sob a terra; queixou-se das substâncias da noite e desejou que aqueles que as tinham posto diante de seu amor reencontrassem a própria consciência... Um anseio por uma justiça onisciente qualquer, mas que carrega sementes de rancor agora tão inúteis quão perniciosas (para quem foi, como para quem ficou).
Os bardos são assim. Uma vida perigosa a nossa. Sorän... Hen'ätu... Kas'Üzi... Käs'Ïliaëlar...
O sorriso das pessoas nos parece mais bonito, quando nos lembramos delas após sua morte?...
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Texto motivado pelas vidas e mortes de "Chorão"/Charlie Brown, Renato Russo, Cazuza, Kássia Eller, Sid Barret e seus irmãos. Embora eu ache que os grandes bardos do mundo atual são Kitaro, Enya, J. M. Jarre, Vangelis, Yanni, Mike Oldfield e seus semelhantes...

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