Kä’lin ainda sentia o coração em quase
completo descompasso; a pele exsudava em um frio de mármore, mas o sangue quase
fervia, em algum lugar no mais profundo do seu corpo magro de meio-elfo,
acostumado às privações de toda ordem.
Meu deus... O que é este
lugar?!... A
mente regurgitava para a alma, a pergunta incômoda; a única pergunta possível,
a única coisa que uma mente sã poderia formular, após aquela jornada. E fora
apenas o primeiro crepúsculo, a primeira noite; ainda haveria outras
quatrocentas e dez.
Kä’lim recordava, agora (enquanto, trêmula,
sua mão esquerda segurava o largo círculo de chumbo fixo na porta de madeira
velha e robusta) o sorriso largo, duro, frio e sarcástico que Zentarödus, seu
mentor e mestre, lhe lançara na face, quando disse que queria passar pelo teste
de Maltrräuzen... Ainda recordava o breve e decisivo colóquio com o qual o
ancião lhe vaticinara o risco que correria; fora a conversa que lhes separara
os destinos:
– Você ainda é muito imaturo.
Vai enlouquecer. A Ordem não te permitirá tal insensatez. Muitos outros, mais
maduros, sábios e fortes do que você, macularam partes da alma, naquele lugar.
Clérigos da paz, de lá saíram descrendo em Deus e, os do amor, apegados às
sementes de um ódio cego e desmotivado. Paladinos, dali fugiram espavoridos,
com olhares vazios e corações secos, sem um grama de fé verdadeira. Magos perderam
o senhorio sobre seus dons anímicos e terminaram ensandecidos, fantoches, nas
mãos habilidosas dos arguimagos do reino dos mortos. Druidas dali partiram, em
revolta contra aquilo que consideravam a pedra angular do universo e o centro
da espiral de toda a sua filosofia e ética: o dogma da neutralidade... Só os
muito experimentados, dentre os teus irmãos de culto, conseguem passar pelo
teste. E quando digo “passar”, digo sobreviver com alguma sanidade, pois os que
eventualmente saem com vida, ou não são mais os mesmos ou não seguem mais à
Morte.
O venerando tutor fizera uma breve pausa;
depois, prosseguira:
Pássaros não cantam, nos
arredores de Maltrräuzen. Nenhum dos grandes felídeos caça ali; nem tigres da
noite, nem leões do dia. Nenhum dos canídeos caça ali; nem os lobos do frio,
nem os chacais das terras quentes. Nenhuma das víboras vai até lá; nem a
mamba-negra nem a serpente-real. Nenhum dragão caminha pelas ruínas de
Maltrräuzen...
O velho aprumara a coluna, cerrara os olhos
e finalizara:
O que você quer, Kä’lim é
apenas um laivo da pulsão de morte que há em você e que vibra bem mais do que
na maioria dos viventes e até do que nos seus próprios pares na crença. O que
você quer é um encontro com a própria morte. E o pior: não com a sua morte, mas
com a de milhares de vítimas da crueldade, da morbidez, das sevícias e da
bestialidade humanas. O que você quer, está – acredite em mim – muito acima de
suas forças espirituais. Você não sabe o que pede e eu não lhe darei permissão.
E mais: se você insistir, comunicarei ao Conselho que você não é mais meu
discípulo – e creia-me: isto me causará imensa dor emocional e algum
considerável prejuízo psíquico. E me oporei ao teu pedido, com toda a veemência
de minha alma; e advogarei a proibição, com o máximo da pouca verve que possuo.
– Então, mestre – dissera após um tempo
intervalo – este é o fim de nossa estrada
conjunta. Porque, na próxima cheia da lua menor, apresentarei minha rogativa ao
Conselho, com ou sem a vossa bênção.
O velho ancião, a quem ele julgara um poço
insondável do equilíbrio perfeito, estremeceu por mais do que por um mínimo
instante e de um modo quase imperceptível. Suas mãos se fecharam, na flor de
lótus; seus olhos cerraram-se; sua boca contraiu-se, num ríctus que nunca
vislumbrara e ele disse as últimas palavras de um mestre a um aprendiz:
– Então é o fim. Não sou mais
seu mestre. A morte é sua mestra, agora... Mas não da forma como eu ou você
desejaríamos. Ou melhor, com eu não o desejaria.”
Nunca mais vira seu mestre. Ao contrário do
que prometera, seu mentor evitara o conclave do Conselho; não foram ouvidos
discursos de mau augúrio, nem oposição pública. Como sempre, seu mestre
escolhera o caminho da discrição e (ao feitio da morte) agira na sombra:
através de uma mesma carta (copiada trinta e três vezes), se dirigira a cada um
dos anciãos e lhes recomendara (melhor seria dizer que suplicara) fosse vedado
ao ex-discípulo a empreitada que o moço requestava.
Fora em vão, o esforço de seu mentor. O
Conselho, após ouvir o candidato, aquiescera ao pedido, sem muitas exigências e
sem qualquer admoestação. Este último detalhe, esta ausência de conselhos –
depois da ênfase do cáustico prognóstico de Zentarödus – foi o que deu a Kä’lim
o primeiro relance do pensamento que agora lhe vinha, à mente, com insistência. Talve eu não esteja pronto para este horror...
No compasso dessa constatação, o jovem
Clérigo da Morte não pôde evitar o pensamento da fuga imediata, mas recordou-se
de uma das regras do teste: ao redor das ruínas, seus irmãos de credo esperavam
pela sua covardia e desistência; podia ver-lhes, à mão, a foice de prata escura
e o punhal de ouro vermelho...
Não! Se for morrer, morrerei
aqui dentro.
Disse, com toda a força de alma que pôde reunir. Mas sabia que era um juramento
débil, como faca de vidro.
Num esforço incomum, afrouxou a mão, em
torno do chumbo enrugado da maçaneta redonda; o sangue voltou a correr pela
extremidade dos dedos, num formigamento ligeiro.
A morte nunca lhe parecera tão assustadora.
Revia, agora, as cenas daquele dia. Os corredores vazios, envoltos na escuridão
da dor; espíritos vagavam por todo o lugar, gritando seu desespero de décadas;
antigos algozes e vítimas invertiam os papéis, torturando-se, incessantemente,
entre gritos de desvario e gargalhadas de riso ensandecido. Rios de sangue –
realidades aferíveis, no plano dos mortos – inundavam as antigas câmaras de
tortura, onde pulsava um amálgama de formas-pensamento, espíritos e construções
psíquicas oriundas de mentes dilaceradas por ódio e crueldade. Havia ambientes
para os quais sequer conseguira olhar; mas ouvira (e ouvia...), de dentro
deles, como se de um fosso ocupado por milhares de mortos-vivos, súplicas de
socorro tão lancinantes que deles fugira, como nunca fugira de nada, em vida.
Nas salas onde outrora se executavam os prisioneiros (mediante veneno em gás),
podia ver, ainda que por um só lance de olhos, o constante repetir das
execuções, com crianças sendo pisoteadas pelos adultos, enquanto todos buscavam
alguma saída; mas sem sucesso: findavam-se todos exauridos, o corpo todo
contraído contra si próprio, até se quebrarem os ossos; todos os orifícios
expulsando todas as secreções e excrementos que um corpo alquebrado, torturado,
vilipendiado e faminto poderia produzir. E não era só: passada a primeira
execução grupal, outros prisioneiros eram obrigados a limpar a câmara,
retirando os cadáveres e limpando fezes, urina, vômito e sangue; os corpos dos
mortos estavam tão achegados uns aos outros, tão retorcidos e tão contraídos
que era preciso amputar-lhes membros (no todo ou em partes) ou separá-los, a
cabo de lança... A cada segundo, vindo de um canto escuro qualquer, as mesmas
gargalhadas desumanas, bestializadas... Os mesmo choros excruciantes... Os
mesmos gritos de desespero. A morte, como ele nunca a vira.
E não era tudo: ainda se perguntava o que
seriam as pequenas crateras, que divisava, no plano dos mortos, se abrindo para
o que pareciam ser gretas de total escuridão, donde provinham gemidos e
grunhidos mais bestiais e alucinantes.
Somente agora percebia como fora terrível,
o ódio que os elfos brancos de Artamandöva tinham sentido e materializado,
contra os meio-elfos de Erkandivär, durante os seis anos daquela que fora a
pior das guerras entre os sencientes de todo o mundo. Só agora percebia; cometera
um erro, indo àquele lugar.
Largou a alavanca da porta. Cerrou os
dentes e voltou-se para a escuridão do corredor central. Decidiu ficar e,
enquanto inúmeros pares de olhos sem vida lhe vinham na direção, ajoelhou-se –
as costas para o portal secular – e usou a única magia, o único poder, o único
dom que lhe podia socorrer, naquela hora em que sentia os umbrais da loucura a se
lhe avizinharem: orou, como nunca fizera em vida...
Os olhos mortos se lhe achegaram rente à
face; bocas lhe bafejaram odores de putrefação, por entre dentes quebrados e
línguas cortadas; olhos ressecados despejaram sobre ele lágrimas de gélido
torpor e mãos descarnadas lhe acariciaram a face contraída, entre risos de
crueldade sem nome.
Pela primeira vez, em sua existência
carnal, Kä’lim sentiu medo da morte e, entre orações aprendidas na primeira
infância, entregou sua sanidade ao deus da misericórdia, para o qual jurara
nunca recorrer.