domingo, 16 de junho de 2013

As Oito Faces

O jogo corria bem...
Uma mesa redonda de poker estava montada, com seis jogadores e duas cadeiras vazias. Seis versões dele mesmo, sentadas à mesa, cada uma com cinco cartas na mão. O Racional olhava seus companheiros com ar impassível, matemático, calculista. Já sabia que o Irônico tinha uma mão ruim – só pela risadinha e a forma como jogara as cartas, viradas pra baixo, à sua frente. O Melancólico olhou suas cartas e fez uma expressão desolada, mas aquilo não significava nada: mesmo que fosse a melhor mão possível, ainda sim não o animaria. O Pessimista – sentado ao lado do Melancólico – passou a mão sem olhar as cartas: sabia que iria perder. O Emotivo olhou sua mão e não conseguiu conter um risinho, entregando assim o fato de ter alguma coisa boa nela. O último a receber fora o Volátil e, seguindo regras próprias, seria também o primeiro a pedir.
O Volátil olhou, impassível, para o Racional, entortou a boca e pôs as cartas na mesa:
 - Duas...
O Racional jogou duas cartas para o Volátil, tentando estudar sua expressão: de todos na mesa era o que lhe representava maior ameaça. Sabia que o Volátil era tão inteligente e astuto quanto ele próprio era, sua única desvantagem era ser estourado demais. Ele olhou as cartas e colocou-as de volta na mesa, impassível. “Não foi dessa vez...” pensou o Racional.
O Emotivo passou a vez, ainda com uma cara de felicidade disfarçada. O Pessimista só olhava a partida enquanto o Melancólico pedia três – ou, ao menos era o que parecia.
 - O que?
 - Três – disse timidamente o Melancólico, meio para si.
 - Como? Três?
O Racional jogou três cartas na frente do Melancólico, que olhou as cartas e continuou triste. O Irônico deu um risinho de canto de boca e disse:
 - Cinco.
 - Cinco? – disse o Racional, com uma expressão incrédula – Você sabe as chances que você tem de puxar uma mão boa? – e olhou as próprias cartas, para calcular por alto as chances.
 - CINCO?? – Berrou o Volátil, levantando-se de uma vez e quase derrubando as próprias fichas e as fichas arrumadas por ordem de cor e tamanho do Racional – Pára de brincadeira! A mão está ruim? Passa a mão, não fica atrasando o jogo!
 - Amigo... se acalme. Eu estou calmo, você está calmo?
Não fosse a intervenção do Racional e do Emotivo, Volátil teria pulado no pescoço do Irônico ali mesmo – Acalme-se, é o jogo, faz parte do jogo – disse Racional, segurando o Volátil tempo o suficiente para ele se acalmar. Ele sentou-se, ainda pensando se deveria voar no Irônico para tirar-lhe o sorriso de deboche da cara ou não.
 - Eu vou pegar duas cartas. – disse o Racional, quando os ânimos esfriaram.
Pegou as cartas e as olhou: Um par de valetes. Fantástico! Com os dois setes da mão daria uma mão razoável, talvez perdesse para o Emotivo, que ainda ria para si próprio, mas ainda sim eram dois pares altos e valia a pena arriscar. Colocou a aposta na mesa, seguido do Volátil – ainda neutro frente o jogo. O Pessimista baixou a cabeça enquanto o Emotivo aumentava a aposta de trinta para quarenta. - "Mal sinal, a mão dele deve mesmo ser boa..." – pensou o Racional.
O Melancólico estava distraído, pensando em algo distante, tanto que o Racional pigarreou de propósito enquanto Volátil engolia em seco. Alarmado, ele empurrou trinta em fichas. – Quarenta. – disse o Racional, enquanto Volátil colocava a mão no rosto em sinal de desagrado. Rapidamente ele jogou uma ficha de dez no bolo.
 - Quarenta mais...bah, só tenho vinte aqui. Pessimista, me empresta cem. – disse o Irônico.
 - COMO ASSIM “EMPRESTA”!? NÃO PODE EMPRESTAR! – berrou de novo o Volátil enquanto o Pessimista dizia “Cara...isso não vai dar certo...”
 - Não pode emprestar. – Disse calmamente o Racional.
 - Ok...ok...ponho esses vinte aqui, to cansado deste jogo mesmo.
O Racional olhou as próprias cartas e cobriu os quarenta mais vinte. Olhou para o Volátil, que olhou de volta – cada qual tentando pensar mais rápido que o outro – enquanto este cobria a aposta também. O Melancólico cobriu a diferença e o Emotivo mal conteve o riso quando baixou as cartas – fora da sua vez:
 - Par de setes e par de três! – disse, triunfante. – e tem esse Ás aqui!
O Volátil – subitamente acometido de bom humor – deu uma gargalhada. O Racional sorriu, colocando as cartas na mesa:
 - Par de setes e par de valetes... e, pra constar, eu também tenho um Ás. – disse, para desespero do Emotivo que começou a lacrimejar. O Irônico olhou para o Racional com uma cara espantada mas feliz, que se traduzia em algo do tipo: “Olha, você também sabe ser irônico!” – E você, Melancólico?
 - Ah... eu tenho do nove ao valete de copas, e depois tenho esse dois e essa dama de paus... 
 - Cara... você não tem nada. – disse o Volátil, calmamente.
 - É... eu sei...
 - NÃO, NÃO SABE! ENTÃO PORQUE CONTINUOU SUBINDO AS APOSTAS E TUDO O MAIS!? – Algumas fichas de cinquenta da pilha milimetricamente construída do Racional pularam quando o Volátil bateu na mesa
 - Não fala assim com ele! – disse o Emotivo, emotivo.
 - Engraçado – interveio o Irônico, em um tom irritante – sabe com quem você está parecendo, não sabe?
Encararam-se por alguns segundos, até que o Volátil desviou o olhar da cara zombeteira do outro, dizendo:
 - Não faço ideia. – mas ele sabia, todos sabiam. O Pessimista levantou a cabeça por um instante e tornou a baixar, o Volátil sentou-se enquanto o Racional desfez, nervosamente, uma pilha de fichas para construí-la de novo. O Emotivo e o Melancólico foram os únicos a olhar através da porta que dava para a cozinha, para a porta da despensa que estava trancada. Fez-se dez segundos de silêncio, até que o Volátil disse:
 - Bom, chega. Trinca de oito. Ninguém tem nenhuma objeção, não é? – disse o Volátil, já olhando as fichas.
 - Bah, como assim? – disse o Racional.
 - É... daí complica mesmo. Eu só tenho cincos... – disse o Irônico, colocando as cartas na mesa -... quatro deles! – falou, sorrindo zombeteiramente.
 - AH VELHO, COMO ASSIM!? - falaram alto, ao mesmo tempo, o Racional e o Volátil, enquanto o Irônico puxava as fichas para si.
 - Você roubou! – falou acusadoramente o Volátil.
 - É matematicamente possível que ele tenha puxado quatro cincos em cinco cartas – disse, categoricamente, o Racional.
 - E logo quando eu ia sair do jogo hein! Que ironia! – zombou o Irônico. O Emotivo achou interessante a virada na mesa e expressou-se com um tímido, mas sincero, “Parabéns”. O Volátil entortou a boca em um risinho esquisito enquanto o resto do rosto demonstrava irritação, dizendo em uma voz fina: “Que ironia”.
 Decidiram dar uma pausa, e foi nesse momento que o Melancólico falou:
 - Não era bom darmos uma olhada nele? – apontando a despensa.
 - Eu concordo – disse o Emotivo – vocês não planejam deixar ele lá, né?
Os outros quatro na mesa se olharam, avaliando a situação.
 - Pode ser perigoso – disse o Racional.
 - Ele quase matou todos nós, não acho boa ideia – disse o Volátil.
 - Foi o jeito dele de reagir... começou o Melancólico, mas calou-se.
 - ... à morte do Otimista – completou o Pessimista, em tom duro. Todos olharam pra ele, estranhando aquela intervenção muito pouco habitual.
 - Não fala assim... ainda não superei... – disse o Emotivo, e abraçou-se ao Melancólico, os dois chorando baixo.
 - Que é, gente? – disse o Pessimista – Aconteceu, temos que encarar os fatos.
 - Tudo bem, mas ainda sim não dá o direito a ninguém de arriscar todos! – interveio o Volátil.
 - É... mas ainda sim, não vamos deixá-lo lá sem ao menos ver se está bem – falou o Irônico.
O acontecido tinha sido trágico: o Otimista havia sido morto covardemente... primeiro, envenenado ao longo do tempo. Quando questionavam o fato de ele estar morrendo, ele sempre respondia: “Morrendo nada!” e sorria. Ele estava demorando muito a morrer então a assassina – sim, uma mulher, talvez com mais cúmplices – resolveu usar métodos mais diretos: três tiros nas costas e treze facadas pelo corpo, após isso ela atirou o Otimista – ainda vivo – de um carro em movimento, barranco abaixo. Os sete foram reconhecer o corpo, cheios de pesar. As coisas tornaram-se feias mesmo quando, ao contrário da expectativa geral, o Otimista exibia uma cara post-mortem de consternação, espanto e dor na mesa do legista. Significava que ele havia morrido mesmo e aquilo fora a gota d’água para o Furioso, o mais descontrolado, vingativo e destrutivo dos oito. Por onde andou deixou um rastro de desolação e escombros enquanto voltava para casa, quase a destruindo quando lá chegou. Na tentativa de detê-lo, os outros seis partiram para controlá-lo e quase morreram no processo, tiveram sorte de a casa não vir abaixo. O Volátil ainda tinha o olho um pouco roxo, e reclamava de dores todos os dias – embora todos soubessem ser um exagero. O Pessimista trazia uma cicatriz de corte no braço que, antes mesmo de ficar curada, já havia sido profetizada por ele. O Emotivo tentou separar todos e passou dois dias desmaiado no sofá.
Levantaram-se, ainda discutindo: O Racional e o Volátil de má vontade, o Emotivo na frente, para pegar a chave. Ao passar pelas cartas do Pessimista, o Racional olhou a mão discretamente: “Full House de quatros e reis...” não bateria o Irônico, mas não era uma mão que ele próprio teria passado. “Ele não muda nunca...” – pensou. Andaram até a despensa e abriram a porta trancada com duas voltas de chave e cadeado. Lá dentro estava escuro, e todos sentiram suas narinas serem invadidas pelo cheiro de suor. Dois globos brilhantes com orbes negras encaravam, de dentro da escuridão, os seis parados na porta: o Furioso estava amarrado em uma cadeira, amordaçado, com mais de uma corda e nós em diferentes pontos. Tudo da despensa havia sido retirado para que ele não se ferisse ao se debater, ou ao tentar escapar. Muitas vezes ele tentava, e os outros seis temiam – e tremiam - mas até agora os nós cirurgicamente dados pelo Racional não haviam cedido. Mesmo com tudo parecendo seguro, ninguém se atreveu a passar do batente.
 - Furioso, você está bem? – perguntou, cautelosamente, o Emotivo.
 - ...
 - Só faz que não com a cabeça – disse o Pessimista.
 - ...
 - Como você pode dizer que a resposta será “não?” Deixe de ser tendencioso! Quem mania! – falou abruptamente o Volátil.
 - Desculpe Volátil... mas ele está amarrado. Seria lógico que não se sentisse “bem” – disse o Racional, com ares de quem tinha razão. Brincava com uma moeda entre os dedos enquanto falava, certo de que estava certo – e, na maioria das vezes, estava mesmo.
Mesmo com a discussão à porta, Furioso não fizera movimento algum. Estava estático, os músculos se pressionando contra as cordas. Se fazia força, não dava pra saber: parecia estar relaxado, e mesmo assim havia tensão em seu olhar. Era consenso geral que permaneceria ali, pois embora só fosse um ele era facilmente mais forte, rápido e imprevisível que os outros.
 - Bem, se continuar sem se debater nós podemos deixar você sair... – falou o Melancólico – eu fico triste com essa situação...
 Sentiram, naquele momento, o olhar penetrante dele. “É o mais forte de nós, mas sem o Otimista para controlá-lo, é força desperdiçada... mais um perigo que propriamente útil...mas ainda sim o mais capaz...” – pensou o Racional.
 - Bom...vou fazer um lanche. Vou fazer um sanduíche pra ele também, se alguém se dispuser a... – falou o Emotivo com um sorriso esperançoso na voz, só para ser interrompido bruscamente pelo Volátil:
 - MAS QUE IDEIA! Vai você lá!
Começou uma discussão acalorada e um empurra-empurra, até que um barulho agudo interrompeu a fala de todos... e outro, e outro, cada vez menores e distantes, vindo de dentro da despensa. A moeda com a qual o Racional brincava caiu, quicando na direção do Furioso até bater na perna de madeira, rodando parada sobre a própria borda até parar completamente ao lado do pé da cadeira. A coroa de dez centavos ficou ali, encarando o Furioso que olhava para baixo apenas com os olhos, até que este levantou os olhos e encontrou os olhos do Racional.
 - Não vais pegar a moeda? – perguntou o Pessimista.
 - Não precisa – respondeu o Racional, ainda olhando nos olhos do Furioso – mesmo ele não conseguirá cortar essas cordas com uma moeda de dez centavos. Anda, vamos comer algo e continuar o jogo.
E fechou a porta, ainda olhando nos olhos do irmão amarrado, sem quebrar o contato até o último segundo. Havia entendimento no olhar de ambos.



sábado, 15 de junho de 2013

Resposta quando indagado sobre o conteúdo dos textos aqui postados e de onde tiro inspiração:

Saída da alma é a inspiração
Breve, rápida, seca em sua forma
O coração de quem a sente, a torna
Em obra, feita, material em sua feição

Seja um texto curto de fantasia,
Uma narrativa carregada de paixão,
Brigas, lutas, caos e confusão
Ou mesmo formatadas poesias

Vem de dentro, daqui, da mente
Para ficar exposta, à vista
Do apreciador da arte, inocente

Que ignorante em sua pose elitista
Mal sabe, ao ver a obra imponente
Que a maioria ficou no artista...

domingo, 5 de maio de 2013

Visualização X descrição


"O ladrão corre pela floresta, passos rápidos, fugindo do urso. A mão agarra fortemente o cristal jade enquanto o chão treme conforme o perseguidor se aproxima.
- Eu sigo ziguezagueando pelas árvores para despista-lo! Você fez o urso com o dobro do tamanho de um urso normal, não venha me dizer que ele também é ninja!

O jogador aponta acusadoramente o mestre. Todos riem.

- Você continua correndo e ziguezagueando, na sua frente tem um tronco de um velho carvalho caído bem ao lado de outro velho carvalho em pé.
- Ok, eu pulo o carvalho caído!

-Ok, você pula o carvalho."


Nesta hora, amigos, um calafrio percorre a espinha de todo bom mestre. Que os mestres adoram carvalhos, isto é uma unanimidade. Mas será que todos já viram um carvalho? Ainda mais um velho carvalho?
Carvalhos podem ser inúmeros (600 espécies segundo a Wikipédia) - mas os mestres adoram o carvalho que cresce e fica velho e imponente, como este, da floresta de Sherwood na Grã-Bretanha:




Imagine este carvalho deitado, caído. Conseguiu? Imagine o ladrão pulando por cima deste carvalho. Pois...haja força nas pernas, amigo!


Não é culpa do mestre, ou dos jogadores...mas quantas vezes, no nosso dia-a-dia, ouvimos coisas e as imaginamos, sem nunca as ter visto de fato?
Uma shamshir, por exemplo: é uma espada oriental, de origem otomana, com empunhadura de madeira ou marfim, geralmente ornamentada. Feita de aço, sua lâmina curva parece-se com a da cimitarra, mas a angulação da lâmina pode chegar a espetaculares 35 graus. Bem...você já consegue imaginar a espada, caro leitor, mas é diferente imaginar a espada seguindo a descrição, ou ouvir o nome após vê-la:

Esta é a shamshir. Um pouco diferente do que você imaginou, aposto. Primeiro que minha descrição foi pobre em detalhes - esqueci a bainha, por exemplo - e depois, temos todos concepção diferente de como são as coisas.

Por isso, caro amigo mestre: nem tudo que você descreve, é o que seus amigos vêem. Para já, tente perceber se eles realmente entenderam o que você quis dizer. Pelo incrível que pareça, a maioria das confusões pelas quais passei em sessões de RPG foi quanto ao senso de direção: as vezes meus colegas se confundiam com esquerda/direita, não porque não sabiam diferenciar uma de outra, mas porque imaginar a cena - muitas vezes com correrias, perseguição, corredores que se bifurcam e caminhos por onde se vai e volta - pode ficar mesmo confuso. Se algum jogador quiser dar uma de esperto, tipo "não, deixa eu ir desenhando..." aproveite a deixa e pergunte: "Seu personagem tem papel? Tinta?". Você enriquece o jogo e seu colega não esquecerá de comprar esses materiais na próxima cidade. Se você planeja descrever coisas que, porventura, talvez seus amigos não tenham visto em parte alguma, considere imprimir uma figura ou mostrar-lhes mesmo na tela do computador (mas continue a sessão, não aproveite para entrar no Facebook). Para mestrar certos ambientes, inclusive, aproveite para fugir da rotina: se a sessão se passará em uma floresta na sua maior parte, combine de realizá-la em um parque - cada um leva salgadinhos, refrigerantes, sucos...já vira pique-nique. A maioria dos parques em grandes cidades - como o Ibirapuera, em São Paulo, ou o Jardim Botânico, no Rio, possui infraestrutura para acomoda-los bem: banheiros, lanchonetes, mesas onde se sentar. Você joga RPG, passa uma tarde com os amigos e ainda sai de casa!
E se seu amigo, que interpreta o ladrão, tentar pular uma árvore, a polêmica de qual o seu tamanho e se ele consegue ou não pode terminar com um simples "A árvore parece-se com aquela ali!"




quarta-feira, 24 de abril de 2013

O Mestre de jogo e o erro das narrações brutais.



Amigos[as], escrevi o texto abaixo a respeito de escritores e aí me apercebi de que ele também pode ser aplicado aos mestre de jogo e ao cotidiano das suas sessões.
Quem quiser me brindar com uma análise/crítica nos comentários, por favor se sinta à vontade.
Até.
O Segundo.


O artista, mais ainda o escritor, é responsável pelas imagens mentais que gera, na mente do espectador/leitor? Penso que sim. A responsabilidade é dele.
Lendo o capítulo “Vinho e água” em “O Temor do Sábio” (“A Crônica do Matador do Rei – O Segundo Dia”, de Patrick Rothfuss), nos deparamos com cenas fortes, mas onde as piores coisas não foram ditas pelo autor: ele deixou de lado a brutalidade comum em muitas obras que se pretendem “adultas”[1] e, sabendo que o leitor tem sua própria inteligência e perspicácia, deixou a este último a tarefa desnecessária de visualizar – se o quiser ou necessitar – as atrocidades cometida pelos vilões, no capítulo em questão. Se o leitor preferir (como a maioria das mentes sadias o farão), não cultivará os quadros mentais dos sofrimentos que o próprio autor preferiu não narrar e ficará com “a vitória do herói” (para simplificar).
Saber fazer isso, quando se compõe ou escreve é uma bela arte. Saber ficar aquém da fronteira sul da natureza criminosa humana e de suas manifestações (onde só há a crueldade e a perversão) e além da fronteira norte da nossa ingenuidade (como se não houvesse o mal, neste mundo).
A maioria das séries televisivas[2] e obras literárias atuais vão para o caminho mais fácil: chocar o máximo possível, pelas imagens e sons, pela narrativa crua e sangrenta e se autodenominarem “adultas”.
O caminho mais difícil é o escolhido por Rothfuss e exige mais inteligência e mais sensibilidade, tanto de quem escreve quanto de quem lê.



[1] O que me faz pensar em Jesus: “Não entrareis no Reino dos Céus se não vos fizerdes como as crianças”...
[2] “Jogos Mortais”, “Dexter”...

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Experiência com a morte.


 


Kä’lin ainda sentia o coração em quase completo descompasso; a pele exsudava em um frio de mármore, mas o sangue quase fervia, em algum lugar no mais profundo do seu corpo magro de meio-elfo, acostumado às privações de toda ordem.
Meu deus... O que é este lugar?!... A mente regurgitava para a alma, a pergunta incômoda; a única pergunta possível, a única coisa que uma mente sã poderia formular, após aquela jornada. E fora apenas o primeiro crepúsculo, a primeira noite; ainda haveria outras quatrocentas e dez.
Kä’lim recordava, agora (enquanto, trêmula, sua mão esquerda segurava o largo círculo de chumbo fixo na porta de madeira velha e robusta) o sorriso largo, duro, frio e sarcástico que Zentarödus, seu mentor e mestre, lhe lançara na face, quando disse que queria passar pelo teste de Maltrräuzen... Ainda recordava o breve e decisivo colóquio com o qual o ancião lhe vaticinara o risco que correria; fora a conversa que lhes separara os destinos:
– Você ainda é muito imaturo. Vai enlouquecer. A Ordem não te permitirá tal insensatez. Muitos outros, mais maduros, sábios e fortes do que você, macularam partes da alma, naquele lugar. Clérigos da paz, de lá saíram descrendo em Deus e, os do amor, apegados às sementes de um ódio cego e desmotivado. Paladinos, dali fugiram espavoridos, com olhares vazios e corações secos, sem um grama de fé verdadeira. Magos perderam o senhorio sobre seus dons anímicos e terminaram ensandecidos, fantoches, nas mãos habilidosas dos arguimagos do reino dos mortos. Druidas dali partiram, em revolta contra aquilo que consideravam a pedra angular do universo e o centro da espiral de toda a sua filosofia e ética: o dogma da neutralidade... Só os muito experimentados, dentre os teus irmãos de culto, conseguem passar pelo teste. E quando digo “passar”, digo sobreviver com alguma sanidade, pois os que eventualmente saem com vida, ou não são mais os mesmos ou não seguem mais à Morte.
O venerando tutor fizera uma breve pausa; depois, prosseguira:
Pássaros não cantam, nos arredores de Maltrräuzen. Nenhum dos grandes felídeos caça ali; nem tigres da noite, nem leões do dia. Nenhum dos canídeos caça ali; nem os lobos do frio, nem os chacais das terras quentes. Nenhuma das víboras vai até lá; nem a mamba-negra nem a serpente-real. Nenhum dragão caminha pelas ruínas de Maltrräuzen...
O velho aprumara a coluna, cerrara os olhos e finalizara:
O que você quer, Kä’lim é apenas um laivo da pulsão de morte que há em você e que vibra bem mais do que na maioria dos viventes e até do que nos seus próprios pares na crença. O que você quer é um encontro com a própria morte. E o pior: não com a sua morte, mas com a de milhares de vítimas da crueldade, da morbidez, das sevícias e da bestialidade humanas. O que você quer, está – acredite em mim – muito acima de suas forças espirituais. Você não sabe o que pede e eu não lhe darei permissão. E mais: se você insistir, comunicarei ao Conselho que você não é mais meu discípulo – e creia-me: isto me causará imensa dor emocional e algum considerável prejuízo psíquico. E me oporei ao teu pedido, com toda a veemência de minha alma; e advogarei a proibição, com o máximo da pouca verve que possuo.
– Então, mestre – dissera após um tempo intervalo – este é o fim de nossa estrada conjunta. Porque, na próxima cheia da lua menor, apresentarei minha rogativa ao Conselho, com ou sem a vossa bênção.
O velho ancião, a quem ele julgara um poço insondável do equilíbrio perfeito, estremeceu por mais do que por um mínimo instante e de um modo quase imperceptível. Suas mãos se fecharam, na flor de lótus; seus olhos cerraram-se; sua boca contraiu-se, num ríctus que nunca vislumbrara e ele disse as últimas palavras de um mestre a um aprendiz:
– Então é o fim. Não sou mais seu mestre. A morte é sua mestra, agora... Mas não da forma como eu ou você desejaríamos. Ou melhor, com eu não o desejaria.”
Nunca mais vira seu mestre. Ao contrário do que prometera, seu mentor evitara o conclave do Conselho; não foram ouvidos discursos de mau augúrio, nem oposição pública. Como sempre, seu mestre escolhera o caminho da discrição e (ao feitio da morte) agira na sombra: através de uma mesma carta (copiada trinta e três vezes), se dirigira a cada um dos anciãos e lhes recomendara (melhor seria dizer que suplicara) fosse vedado ao ex-discípulo a empreitada que o moço requestava.
Fora em vão, o esforço de seu mentor. O Conselho, após ouvir o candidato, aquiescera ao pedido, sem muitas exigências e sem qualquer admoestação. Este último detalhe, esta ausência de conselhos – depois da ênfase do cáustico prognóstico de Zentarödus – foi o que deu a Kä’lim o primeiro relance do pensamento que agora lhe vinha, à mente, com insistência. Talve eu não esteja pronto para este horror...
No compasso dessa constatação, o jovem Clérigo da Morte não pôde evitar o pensamento da fuga imediata, mas recordou-se de uma das regras do teste: ao redor das ruínas, seus irmãos de credo esperavam pela sua covardia e desistência; podia ver-lhes, à mão, a foice de prata escura e o punhal de ouro vermelho...
Não! Se for morrer, morrerei aqui dentro. Disse, com toda a força de alma que pôde reunir. Mas sabia que era um juramento débil, como faca de vidro.
Num esforço incomum, afrouxou a mão, em torno do chumbo enrugado da maçaneta redonda; o sangue voltou a correr pela extremidade dos dedos, num formigamento ligeiro.
A morte nunca lhe parecera tão assustadora. Revia, agora, as cenas daquele dia. Os corredores vazios, envoltos na escuridão da dor; espíritos vagavam por todo o lugar, gritando seu desespero de décadas; antigos algozes e vítimas invertiam os papéis, torturando-se, incessantemente, entre gritos de desvario e gargalhadas de riso ensandecido. Rios de sangue – realidades aferíveis, no plano dos mortos – inundavam as antigas câmaras de tortura, onde pulsava um amálgama de formas-pensamento, espíritos e construções psíquicas oriundas de mentes dilaceradas por ódio e crueldade. Havia ambientes para os quais sequer conseguira olhar; mas ouvira (e ouvia...), de dentro deles, como se de um fosso ocupado por milhares de mortos-vivos, súplicas de socorro tão lancinantes que deles fugira, como nunca fugira de nada, em vida. Nas salas onde outrora se executavam os prisioneiros (mediante veneno em gás), podia ver, ainda que por um só lance de olhos, o constante repetir das execuções, com crianças sendo pisoteadas pelos adultos, enquanto todos buscavam alguma saída; mas sem sucesso: findavam-se todos exauridos, o corpo todo contraído contra si próprio, até se quebrarem os ossos; todos os orifícios expulsando todas as secreções e excrementos que um corpo alquebrado, torturado, vilipendiado e faminto poderia produzir. E não era só: passada a primeira execução grupal, outros prisioneiros eram obrigados a limpar a câmara, retirando os cadáveres e limpando fezes, urina, vômito e sangue; os corpos dos mortos estavam tão achegados uns aos outros, tão retorcidos e tão contraídos que era preciso amputar-lhes membros (no todo ou em partes) ou separá-los, a cabo de lança... A cada segundo, vindo de um canto escuro qualquer, as mesmas gargalhadas desumanas, bestializadas... Os mesmo choros excruciantes... Os mesmos gritos de desespero. A morte, como ele nunca a vira.
E não era tudo: ainda se perguntava o que seriam as pequenas crateras, que divisava, no plano dos mortos, se abrindo para o que pareciam ser gretas de total escuridão, donde provinham gemidos e grunhidos mais bestiais e alucinantes.
Somente agora percebia como fora terrível, o ódio que os elfos brancos de Artamandöva tinham sentido e materializado, contra os meio-elfos de Erkandivär, durante os seis anos daquela que fora a pior das guerras entre os sencientes de todo o mundo. Só agora percebia; cometera um erro, indo àquele lugar.
Largou a alavanca da porta. Cerrou os dentes e voltou-se para a escuridão do corredor central. Decidiu ficar e, enquanto inúmeros pares de olhos sem vida lhe vinham na direção, ajoelhou-se – as costas para o portal secular – e usou a única magia, o único poder, o único dom que lhe podia socorrer, naquela hora em que sentia os umbrais da loucura a se lhe avizinharem: orou, como nunca fizera em vida...
Os olhos mortos se lhe achegaram rente à face; bocas lhe bafejaram odores de putrefação, por entre dentes quebrados e línguas cortadas; olhos ressecados despejaram sobre ele lágrimas de gélido torpor e mãos descarnadas lhe acariciaram a face contraída, entre risos de crueldade sem nome.
Pela primeira vez, em sua existência carnal, Kä’lim sentiu medo da morte e, entre orações aprendidas na primeira infância, entregou sua sanidade ao deus da misericórdia, para o qual jurara nunca recorrer.

sábado, 13 de abril de 2013

Tréplica ao Primeiro Bardo desta casa, sobre a questão do bardo morto.

O Primeiro bardo replicou-me a fala
sobre o bardo morto em mes já findado.
E deixou bem claro, sua voz não cala
o quanto discorda do que hei falado.

Dar-lhe a vez posso e posso dizer
que, de fato, "bardo" não é todo ser,
ainda que viva de canções e noites
e que dê à pena e ao cravo açoites.

Mas me pego a ver se não é qual no jogo,
se não é como quando se acende um fogo:
no jogo há os níveis ao nosso dispor;
no fogo, os diversos graus do calor.

O bardo hora morto eu creio que era
um bardo menor, de níveis modestos.
Fazia seus truques, sem ares de presto,
mas quanta era a gente que 'inda hoje o venera!

Sincero ele era; perdido, talvez;
no fim de sua vida escravo da peste
que assola a paz e contra ela investe
deixando sua marca de fel e morbidez.

Que os deuses do tempo e da eternidade
lhe deem descanso nas doces herdades.
Que os versos que ele deixou entre nós
sejam o legado de um fim tão atroz...

Personagens não óbvios [do mundo real e do irreal].

No RPG/D&D [não me venham falar de GURPS nem de outras absurdidades semelhantes...] ou na literatura de ficção os melhores mestres de jogo e os melhores escritores parecem optar pelos personagens não óbvios, aquele tipo de "pessoa" que não saberíamos classificar na escala do bem e do mal.
Há MJs e escritores que preferem o caminho mais fácil: quem é bom, é bom [clérigos, paladinos etc.], quem é mau é mau [vampiros, cavaleiros da morte, larões chefes de guilda etc.].
Mas pergunte a si mesmo quantas "pessoas óbvias", quanta gente totalmente, inteiramente boa você conhece, com absoluta certeza de quem são e de que são realmente e completamente voltadas para o bem? O mesmo para o mal, agora?
Este é um mundo de pessoas como nós, cheios de contradições, hora bons, hora nem tão bons assim, hora muito maus. Até Pedro, o líder dos apóstolos de Jesus teve suas contradições [mas não depois de se reconciliar com Jesus, depois de traí-lo...].
Este breve post vem apenas recordar que alguns dos personagens mais marcantes dos últimos anos, na literatura, no cinema e na História, são desta categoria: "eu e minhas contradições"...
Kitiara e Tanis Meio-Elfo, Raistlin. Dr. Gregory House... Tyrion e Jaime Lanister. Varis... Kvothe Arliden e Denna. Dexter Morgan? Não. Dexter é mesmo "do mal"... Abraham Lincoln? Churchill?
Assim, quando formos escrever e/ou "mestrar" temos de nos lembrar que somente os "anjos" são perfeitos. Nós, assim como a maioria do mundo, somos uma mistura de uma série de virtudes, vícios, gostos, concepções e decisões que nos tornam únicos [e não, eu não estou fazendo apologia aos nossos defeitos e vícios: estes devem ser combatidos em nós, para que possamos evoluir etc. etc. etc.].







A nota ao cair da noite.

Cai a noite neste mundo que nunca dorme.
Sentado na janela do segundo andar da casa, Lebert puxa uma nota no seu violino. Nenhuma canção será tocada, nenhum acorde planejado ou sendo construído. Ele toca aquele Fá pois, ao ouvi-lo, a madeira feliz torna-se púrpura aos poucos.
"- Toca aquela nota p'ra mim? Por favor?
 - Não sei se você merece...
 - Ok...vou ficar b'rava então!"

Só depois dela fechar a cara, Lebert entoava o Fá. O rosto dela sob seus cabelos castanhos, iluminados pelo sol, transmutando-se da raiva e da expressão fechada em assombro - ou assomb'ro, no impertinente vício de linguagem que ela tinha de encher a boca com os Pês e Bês antes da letra R - ao surgir do púrpura na superfície semi-espelhada da madeira feliz. "De novo! Até a cor ficar forte!" -  e podiam passar a tarde naquele ritual...Fá...Fá...Fá...
As vezes ela dizia uma cor e Lebert ficava tentando achar a nota correspondente no violino. Como a madeira feliz demora a reagir às vibrações da nota, o processo poderia ser frustrante. Algumas cores já sabia as notas correspondentes...outras nem tanto, ainda mais quando ouvia dela pedidos desbaratados do tipo: "Vermelho...mas não vermelho tipo da maçã e sim o da melancia por dentro, quase perto da casca!".
Sabia que era de propósito, mas não se importava. Quando ela se cansasse, lembraria que adorava o púrpura penetrante e pediria aquela nota novamente.
Naquela noite perdera a chance de dizer que a amava, fizera pouco das suas palavras e ainda saíra da pousada brigado com ela - "Não vás...porque não andamos perto do lago esta noite? Fica comigo, nada de bom há na taverna para ti!". E não havia mesmo. Cerveja e uma aposta idiota, e agora tudo que resta dela são Fás...
As lágrimas não brotam mais de seus olhos cansados de vertê-las, mas seu coração fragmentado se enche de pranto. Tudo são azares ultimamente, e nem o céu deste estranho mundo que nunca dorme ou silencia lhe consola com uma estrela ou outra. Ao menos a cidade parece ser o próprio céu, com o cintilar de suas luzes que só descansam ao nascer do sol.
Entre maravilhado com tudo de estranho que descobre e angustiado por ser um pária em um lugar ao qual não pertence, só lhe resta recolher-se a estes pequenos momentos para dar de beber à porção do seu coração que não se rende ao fantástico mundo novo.
Fá...Fá...Fá...

terça-feira, 9 de abril de 2013

Discordo...

Li, e discordo do segundo
Em ser inerente ao bardo
A queda frente ao fardo
Que é a tentação no mundo.

Sabe-se que a Terra oferece
Em suas ruas, bares, becos e salões
Farta, fácil, gama de opções
De prazeres que o corpo carece

Mas, a visão das várias partes do todo
Aliada ao bom senso e experiência
Dão ao bardo o poder e a sapiência
De preferir o bom prazer ao engodo.

Não é, amigo, intenção ser ferino
Tampouco, a ferro e fogo, classicista
Mas isso difere o bardo do vão artista
Sem, porém, o transformar em paladino...



domingo, 24 de março de 2013

E poderíamos esquecer o mestre?!...

Como disse em 2012 ninguém menos do que George R. R. Martin, "somos todos seguidores de Tolkien"...
Então, este blog [pela pena do Segundo bardo], vem esclarecer a "todos os fãs revoltados" que A Biblioteca do Bardo possui seus exemplares das principais obras do gênio britânico, J. R. R. Tolkien.





















Todos valem a pena... Para ser beeeeeeeeeeeem óbvio.
Até mais.

terça-feira, 19 de março de 2013

Crônicas de Dragonlace.

As Crônicas de Dragonlance me fazem pensar nas razões da fama de algumas obras literárias, em detrimento de outras muito menos empolgantes, muito menos ricas de personagens, cenários, roteiro etc.
Não porque ela seja ruim. Ao contrário. As Crônicas são excelentes. Perfeitas? Ora! Perfeito, amigão, só O Senhor dos Anéis [embora Tolkien tenha dito em suas cartas que considerava falha a forma como a morte de Gandalf tinha sido retratada... Se Ele falou isto, quem sou eu para discordar?!], nos últimos dois séculos e O Silmarillion...

As Crônicas merecem uma boa transmigração para as telonas, faz tempo. Seria sucesso de público, garantido. Nem sei porque algum "gênio" ainda não percebeu isso e foi produzir a coisa toda... Algum dia, quem sabe [de preferência antes de eu morrer...].

Aí embaixo, as capinhas da trilogia principal da série literária de Maragerth Weis e Tracy Hickman.
Procure comprar [se piratear, não me acuse de incentivá-lo... Embora a nossa lei e nossos tribunais já tenham pacificado o entendimento de que a cópia para uso pessoal não é crime]. É leitura bárdica edificante garantida...







Os principais personagens? Aí vão eles.
Tanis [meio-elfo] e Kitiara [seu amor humano]:


A princesa élfica Laurana:


O guerreiro Caramon:


O kender [raça típica do mundo-cenário] Tasslehoff:


O honrado cavaleiro Sturm:


Este é Tracy Hickman:


Esta é Margareth Weis:


segunda-feira, 11 de março de 2013

A vida dos bardos é perigosa...

O bardo morto.
A vida dos bardos é perigosa. Para os mais sensíveis, o amor, a paixão e a sensualidade são venturosas armadilhas ou desgraçadas bênçãos. Para os menos sensíveis, a noite, seus prazeres, suas psicosferas, suas energias, seus fluidos são todo um caleidoscópio de tentações e desafios práticos para qual seja a filosofia que esposam (sabido que a quase totalidade dos bardos não é muito chegada a perquirições teóricas acerca da virtude ou da natureza das coisas... Quase sempre se riem, quando descobrem as três pilastras da deontologia de um dos pais da Filosofia nascida às margens do grande mar territorial: Uma coisa é o que ela é. Uma coisa não pode ser e não ser o que ela é, ao mesmo tempo. Uma coisa é ou não é.).
Um bardo faleceu, há três dias ou cinco. Um dos sensíveis. Compunha poemas e canções de amor e paixão. Até os infantes o adoravam. Brincava ainda nalgumas coisas de criança, é verdade, mesmo tendo mulher e filhos (durante sua vida, nosso sol vira este mundo o rodear quarenta e três vezes). Amava os amigos; brigava com eles. Amava sua mulher; tornava sua vida difícil... Até que, pelo que se conta nas tavernas, ela se cansou, não aguentou mais.
Dizem que a noite o tomou para si. A noite do mundo, a noite das tavernas, a noite de sua própria alma. A noite e suas substâncias, suas energias.
A noite o seduziu? Talvez. As dores do mundo fizeram sua parte também, esteja seguro.
Uma vez o ouvi dizer que sonhara com o pai há muito morto. O velho lhe dissera o que era a vida e lhe mostrara o além túmulo dos bem-aventurados. E o velho lhe pareceu muito bem (apesar de não estar mais vivo!). A conversa lhe deu paz, ele dizia; mudou sua visão do mundo, deste mundo e do outro, da vida e das coisas que estão nela, do que ela é feita.
Não o conheci muito, nem de perto. Nem gostava tanto assim de suas canções e poemas. Minha irmã (que não sabe quase nada de bardos) diz que ele era apenas um adulto imaturo, um homem se enganando e se perpetuando nos derradeiros andares do castelo da infância, da irresponsabilidade. Quem o saberá, agora?
A mulher desabafou, quando o corpo do amado morto desceu à cripta cerimonial, para ser posto sob a terra; queixou-se das substâncias da noite e desejou que aqueles que as tinham posto diante de seu amor reencontrassem a própria consciência... Um anseio por uma justiça onisciente qualquer, mas que carrega sementes de rancor agora tão inúteis quão perniciosas (para quem foi, como para quem ficou).
Os bardos são assim. Uma vida perigosa a nossa. Sorän... Hen'ätu... Kas'Üzi... Käs'Ïliaëlar...
O sorriso das pessoas nos parece mais bonito, quando nos lembramos delas após sua morte?...
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Texto motivado pelas vidas e mortes de "Chorão"/Charlie Brown, Renato Russo, Cazuza, Kássia Eller, Sid Barret e seus irmãos. Embora eu ache que os grandes bardos do mundo atual são Kitaro, Enya, J. M. Jarre, Vangelis, Yanni, Mike Oldfield e seus semelhantes...

domingo, 10 de março de 2013

"O Nome do Vento", de um bardo para outro.

O Primeiro bardo deste blog, sabendo que o Segundo estava sem leitura bárdica edificante [depois que terminou - em uns dois meses - os cinco livros de G. R. R. Martin/"A Sonf of Ice and Fire"], lhe indicou [primeiramente] e o presenteou [depois] com uma pérola: "O Nome do Vento".
Não se julga um livro pela capa, não é? Mas vejam só que capa:




É ou não é para adorar?
Além da capa, o livo é demais. Começa meio despretensioso, numa taverna, como começam quase todas as sessões de RPG/AD&D que se prezam [#presam]. Depois, ora depois! Depois fica ótimo: sangue, lágrimas, poemas, canções, um roteiro muito bem construído, um cenário verossímil, capítulos curtos e fáceis de ler.
Leitura bárdica edificante...
O autor é o maluco abaixo:


Olha só a alegria dele, ao ver seu livros nas estantes do mundo...
Acho que o Primeiro bardo desta casa ainda vai escrever um livro tão bom ou melhor do que o de Patrick Rothfuss. Até lá, vou lendo esse aí... Você também deveria.
Abaixo, algumas imagens dos personagens.






Saudações, desde a casa do menestrel,
O Segundo.

Canção de amor silente.


Caminhavam lado a lado, Niläium e Sä'dean'lor, bardo e clérigo, respectivamente, como a vida (e suas escolhas...) os fizera.
Visitavam uma instância agreste, junto à encosta de modesta montanha, cujas trilhas agora percorriam, no rumo de uma casa simples, onde morava uma senhora do conhecimento de Sä'dean.
O sol ardia inclemente, na abóbada em branco azulado e o zênite se insinuava para muito breve. Gotas grossas de suor escorriam de ambas as faces: a geralmente sorridente (e, naquele dia, um tanto serena) do bardo e a sempre serena (e, naquele dia, um tanto sorridente) do clérigo, enquanto, atrás deles, Sinlionïra (sacerdotisa) e Tardighän (homem de armas, embora pacífico por natureza), andavam em silêncio, igualmente sentindo o bafejo ardente do carro viajor do Incriado.
Mas, naquele segundo, Niläium não olhava para trás, para admirar (coisa de que ele não se cansava) a beleza da clériga (com foros de paladina) ou para averiguar se o jovem guerreiro (e seu amigo) estava em paz.
O bardo olhava para o tempo, como uma criança num campo de sonhos olha para um castelo de cristal, sem poder entendê-lo, duvidando mesmo da sua realidade, enquanto tenta, quase em vão, apreender seus contornos e entender a engenharia que o constituiu.
Olhava para dentro de si mesmo, para perceber o que havia acontecido com seu íntimo, em tantos anos. Pensava no humano/clérigo, no amor e na dádiva do perdão; pensava no humano/guerreiro, no esforço ininterrupto pela busca da harmonia interior; pensava na meio-elfa/clériga, nas escolhas de antes da vida carnal, nas renúncias, no trabalho.
Em seu silêncio, disse a cada um que os amava e desejou oferecer-lhes, na quietude da manhã alta, uma canção de paz e de elevação, onde a gratidão pela dádiva de conhecê-los estivesse presente, embora velada.
Mas não cantou... Não com sua voz. A alma, porém, moveu a lira imortal dos sentimentos e as vibrações de suas cordas de ouro se espraiaram ao redor dele, talvez (ele pensou, ingenuamente...) atingindo o coração de seus amigos e irmãos.
Os pássaros negros agitaram-se no mato que beirava a estrada e todos se voltaram, juntos, para mirá-los, tecendo, cada qual, sua pequena consideração de espanto...

sexta-feira, 8 de março de 2013

Você quem vai mestrar?

   Está aí uma pergunta que já me fizeram algumas vezes. Vamos jogar? Vamos! Você quem vai mestrar?
A pergunta em si não é estranha para as pessoas que vivem - e convivem, como é o caso das mães dos mestres cujas casas são, em grande parte dos grupos, as escolhidas para abrigar as sessões - com o RPG...mas ela traz, implícita, uma condição: a de responsabilidade. E digo mais, são duas as responsabilidades se você estiver mesmo interessado...
   A primeira delas é com seus amigos, de várias formas diferentes. De forma direta você é responsável pela sua diversão - afinal, é da sua imaginação que vai sair os cenários e situações que eles enfrentarão - e não pense que os jogadores não notam se você tiver um desempenho aquém do esperado: os melhores dentre eles, notam sim. Daí você diz: "Ah, que seja! Se está achando ruim, deveria mestrar no meu lugar!" - e daí eu te respondo: "Mas se havia, na sua cabeça, alguém mais apto a fazê-lo ou se é algo que não te desperta interesse, por que assumiu tal papel?"
A responsabilidade do mestre para com os jogadores, porém, vai muito além da diversão. O RPG é um jogo que simula uma realidade no lugar mais perigoso possível (fora, obviamente, a Austrália...lugar onde existe a maior probabilidade de você morrer por uma causa idiota na Terra): a imaginação alheia. O pensamento é poder. Convença seu amigo que ele é um guerreiro poderoso, e em questão de dias ele poderá estar chutando portas dentro de casa e com um comportamento mais agressivo. Algumas pessoas perdem o limite entre elas e o personagem, entre a realidade e a fantasia. Elas querem ser bravas, corajosas, destemidas... querem poder dizer o que quiser e fazer coisas aparentemente sem sentido tornarem-se feitos heroicos  Mas a forma de se fazer isto na vida real é diferente do RPG. Como mestre de jogo, cuide dos seus jogadores!
   A segunda responsabilidade é consigo mesmo, caro mestre. Tens o que é necessário para levar a tarefa adiante? Posso - na condição de mestre de jogo "emérito" - dizer-lhe que que nunca mais terás um segundo de tédio. As filas de banco, os pontos de ônibus, os minutos no banho (cuidado, podem tornar-se dezenas de minutos ou pior...) se tornarão momentos preciosos para que você enrede tramas; imagine lugares e pessoas; crie falas, objetos e criaturas. Para que seus amigos se divirtam algumas horas por semana você se divertirá a semana inteira: mexendo nas regras, fazendo fichas e moldando o seu próprio universo. O único momento que lhe faltará a diversão e no qual você duvidará se é isto mesmo que você quer para si é justamente durante a sessão, principalmente quando aquela combinação sonora que você tanto imaginou que abriria a porta quando água fosse jogada nos cristais na ordem correta vai por terra pelas mãos de seu jogador mais empolgado - e seu machado. Quando o velho que possui o mapa para uma região desconhecida no submundo é chutado para longe - e tudo que separava o mapa das mãos dos jogadores era um pão. Nestas horas você se perguntará: "Por que?" - e os mais dramáticos levantarão as mãos para o céu amaldiçoando a sorte! Se venceres estes momentos, terás toda a glória e divertimento que cabem ao mestre pelo seu trabalho.
   Porque ser jogador, caro amigo, é aceitar um papel. Ser mestre é aceitar muitos.


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Perdido!

 - O ar já me faltava, mas as pernas continuavam a correr desesperadamente com aquele peixe de cristal ridículo na mão. Atrás, o latido de cães trazidos sabe-se lá de onde pela feitiçaria de Oderas.
E que nome para um arquimago...Oderas...com todo aquele poder, ele não sabe uma magia sequer que mude o próprio nome?
Bem, não interessa. Para ganhar uma aposta, entrei na torre de Oderas para buscar o objeto mais curioso que conseguisse pegar. Obviamente eu me arrependia e muito naquele momento, enquanto parte de mim pensava com afinco para que eu nunca esquecesse: Não julgue uma pessoa pelo seu nome!
Cheguei na escada em espiral e saltava quatro degraus de uma vez, em uma descida desesperada. Apenas um corredor me separava da porta da frente...
 - Que tipo de ladrão sai pela porta da frente?
 - Ora como assim? O senhor não entende...
 - Pedro. Senhor não, Pedro. Troque o "senhor" por "você".
 - Como quiser...Pedro. O você não entende...
 - "O você" não, só você.
Naquele momento, eu respirei fundo por uns dez segundos. Estava em um lugar completamente estranho e a única pessoa disposta a me ouvir era este senhor, Pedro, que me interrompia e corrigia a cada frase, como se minha linguagem fosse inadequada ou impertinente.
 - ...desculpe. Você não entende, não posso simplesmente descer uma torre por onde subi enquanto um arquimago furioso atira raios e coisas brilhantes na minha direção. E eu ainda tinha a porcaria do peixe de cristal...
 - Vidro. Desculpe mas isto é vidro.
 - Que seja, não me serve de nada agora. Além do mais, não sou um ladrão. Eu vivo da minha música...isso de roubar eu prefiro dizer que é "apropriar-se de maneira lícita de objetos momentaneamente esquecidos". Continuando: assim que desci o último lance de escada, corri uns cinco metros pelo corredor em direção à porta quando um estrondo à minha frente me fez parar, ali mesmo. Oderas aparecera entre mim e a porta, do nada..."Ha, um truque barato de mago..." eu disse, não sei porque. A verdade é que estava morrendo de medo. Ele disse então: "Truque barato de mago? Vou me certificar que nunca mais verás um, ou nunca mais eu o verei!" - e pronto, acordei aqui. Andei meio que maravilhado, meio que assustado com tudo, quando entrei naquilo que você chama de padaria. Tentei comprar algo com minhas peças de ouro e você, caro amigo, interveio.
 - Eu ainda não acredito na sua história, mesmo vendo você com estas roupas, estas peças de ouro que para você são tão comuns mas que possuem valor incalculável neste mundo e seu violino que, confesso, é o que mais me intriga por ser feito de uma madeira da qual nunca ouvi relato. Isto de mudar de cor é realmente intrigante!
 - Bem, caro amigo...gostaria de satisfazer suas curiosidades mas creio que preciso arrumar um meio de voltar para casa.
 - Não conheço nenhum, nem nunca ouvi falar de nada parecido. É melhor para você manter sua história em segredo. Compraremos algumas roupas para que não chame tanta atenção e procuraremos um meio de arranjar-lhe algum dinheiro com este ouro todo que você carrega consigo.
Havia sabedoria nas palavras do senhor Pedro. Concordei prontamente com seus conselhos: Compramos umas roupas para mim - não havia alfaiate, ele me levou em um grande lugar com centenas de milhares de roupas ali, ao alcance da mão. Fantástico! Imagino quantas costureiras trabalham ali! - E ele vendeu uma de minhas peças de ouro "na internet" (preciso saber o que isto significa...) por muito dinheiro, pelo que ele me disse. Dinheiro de papel...estranho! Como pode o papel valer tanto quanto o ouro?
O que mais me atraiu em sua casa - uma casa bonita em um bairro arborizado desta grande cidade que ele chama de "São Paulo" - foi sua pequena biblioteca! Gastamos as horas do dia ou conversando, sobre meu mundo e o dele, ou as gasto por conta própria lendo livros e aquilo que ele chama de "Jornal". Já que estou aqui, ao menos entenderei como este mundo funciona, procurando um meio de voltar para casa.
Meu nome é Lebert, boêmio e violinista das ruas de Torendil. Bem, agora das ruas de "São Paulo", pelo menos enquanto estou perdido por aqui, dono orgulhoso de um violino feito de madeira feliz, algumas dezenas de peças de ouro e prata e de um peixe de cristal!...aham...vidro!