Cai a noite neste mundo que nunca dorme.
Sentado na janela do segundo andar da casa, Lebert puxa uma nota no seu violino. Nenhuma canção será tocada, nenhum acorde planejado ou sendo construído. Ele toca aquele Fá pois, ao ouvi-lo, a madeira feliz torna-se púrpura aos poucos.
"- Toca aquela nota p'ra mim? Por favor?
- Não sei se você merece...
- Ok...vou ficar b'rava então!"
Só depois dela fechar a cara, Lebert entoava o Fá. O rosto dela sob seus cabelos castanhos, iluminados pelo sol, transmutando-se da raiva e da expressão fechada em assombro - ou assomb'ro, no impertinente vício de linguagem que ela tinha de encher a boca com os Pês e Bês antes da letra R - ao surgir do púrpura na superfície semi-espelhada da madeira feliz. "De novo! Até a cor ficar forte!" - e podiam passar a tarde naquele ritual...Fá...Fá...Fá...
As vezes ela dizia uma cor e Lebert ficava tentando achar a nota correspondente no violino. Como a madeira feliz demora a reagir às vibrações da nota, o processo poderia ser frustrante. Algumas cores já sabia as notas correspondentes...outras nem tanto, ainda mais quando ouvia dela pedidos desbaratados do tipo: "Vermelho...mas não vermelho tipo da maçã e sim o da melancia por dentro, quase perto da casca!".
Sabia que era de propósito, mas não se importava. Quando ela se cansasse, lembraria que adorava o púrpura penetrante e pediria aquela nota novamente.
Naquela noite perdera a chance de dizer que a amava, fizera pouco das suas palavras e ainda saíra da pousada brigado com ela - "Não vás...porque não andamos perto do lago esta noite? Fica comigo, nada de bom há na taverna para ti!". E não havia mesmo. Cerveja e uma aposta idiota, e agora tudo que resta dela são Fás...
As lágrimas não brotam mais de seus olhos cansados de vertê-las, mas seu coração fragmentado se enche de pranto. Tudo são azares ultimamente, e nem o céu deste estranho mundo que nunca dorme ou silencia lhe consola com uma estrela ou outra. Ao menos a cidade parece ser o próprio céu, com o cintilar de suas luzes que só descansam ao nascer do sol.
Entre maravilhado com tudo de estranho que descobre e angustiado por ser um pária em um lugar ao qual não pertence, só lhe resta recolher-se a estes pequenos momentos para dar de beber à porção do seu coração que não se rende ao fantástico mundo novo.
Fá...Fá...Fá...
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